Meio Ambiente

A sede invisível da inteligência artificial: o impacto ambiental oculto por trás das IAs

Expansão dos Data Centers reacende debates sobre crise hídrica, consumo energético e possíveis impactos ambientais provocados pelo avanço acelerado das inteligências artificiais

Uma simples sequência de perguntas feitas para uma inteligência artificial pode consumir água suficiente para encher uma garrafa média de água mineral. Embora invisível para a maioria dos usuários, ferramentas como ChatGPT, Gemini e outras plataformas de Inteligência Artificial (IA) dependem de uma infraestrutura física gigantesca para funcionar e o custo ambiental por trás dessas respostas rápidas começa a preocupar pesquisadores em diferentes partes do mundo.

Por trás de cada resposta produzida em segundos existem milhares de servidores operando continuamente em Data Centers espalhados pelo mundo. Essas estruturas sustentam inteligências artificiais, redes sociais, serviços de streaming e armazenamento em nuvem, mas também exigem enormes quantidades de água e energia elétrica para manter seus sistemas resfriados.

Segundo estimativas divulgadas pela Universidade da Califórnia em Riverside e pela Universidade do Texas, uma sequência de 20 a 50 perguntas feitas a uma IA pode consumir aproximadamente 500 mililitros de água devido aos sistemas de refrigeração dos servidores. Já um estudo do Lawrence Berkeley National Laboratory aponta que o consumo anual de água dos Data Centers nos Estados Unidos pode chegar a 276 bilhões de litros até 2028, impulsionado principalmente pela expansão das inteligências artificiais.

Além do impacto hídrico, a Agência Internacional de Energia estima que os Data Centers já representam entre 1% e 1,5% do consumo global de eletricidade, número que deve crescer com a popularização das IAs generativas.

Crise hídrica já preocupa especialistas

Quando perguntado se o aumento do consumo de água por tecnologias digitais pode agravar cenários de crise hídrica, o mestre em ecologia Yago Santos afirma que esse impacto já é uma realidade em diferentes partes do mundo.

“Se eu respondesse que ‘pode’ estaria dando uma resposta desatualizada. Isso já acontece em várias partes do mundo. A Unicef já estima que 700 milhões de pessoas serão deslocadas por falta de água no mundo até o fim desta década. É um cenário já grave, que pode acontecer mesmo em países com muita reserva de água por causa de conflitos, má gestão da água, colapso da infraestrutura e dos sistemas de distribuição e diferentes tipos de contaminação. Essas novas tecnologias digitais podem afetar em todos esses tipos de causas de escassez hídrica”, afirma.

Nos Estados Unidos da América (EUA), os impactos ligados ao funcionamento de grandes Data Centers já vêm sendo percebidos por comunidades próximas dessas estruturas.

“Os EUA são cheios de exemplos de como isso ocorre. Várias cidades enfrentam uma piora da qualidade e quantidade da água, pois uma porção significativa da água local tem sido utilizada para resfriar os Data Centers e acaba sendo evaporada e deslocada para longe da bacia hidrográfica que abastece a cidade. No Estado da Georgia, várias pessoas ficaram sem água ou com baixa pressão na tubulação que abastece suas casas”, explica.

Para Yago Santos, a expansão acelerada das inteligências artificiais vem sendo impulsionada por interesses de mercado e pela corrida tecnológica envolvendo os Data Centers, sem que exista planejamento ambiental proporcional ao crescimento dessas estruturas.

Expansão das IAs já provoca conflitos no Brasil

O Brasil também entrou na rota de expansão dos Data Centers voltados para inteligência artificial. Grandes projetos vêm sendo anunciados em diferentes estados por conta da disponibilidade energética e hídrica do país, mas o avanço dessas estruturas já começa a provocar conflitos ambientais e sociais.

No Ceará, indígenas Anacé ocuparam a Superintendência Estadual do Meio Ambiente para questionar o licenciamento de um Data Center ligado ao TikTok e à empresa Casa dos Ventos no município de Caucaia. A principal preocupação envolve o alto consumo de água previsto para a região, que já enfrenta períodos de seca e dificuldades de abastecimento.

Outro ponto levantado pelo pesquisador envolve o aumento da demanda energética causada por essas estruturas.

“Outro dilema ambiental é o alto consumo energético. Este Data Center específico deve gastar energia elétrica suficiente para abastecer 2,2 milhões de pessoas. Quais impactos esse aumento abrupto de demanda energética tem no meio ambiente? Serão construídas novas usinas de produção de energia? Em que territórios? Quem será impactado?”, questiona.

Amazônia pode sofrer impactos indiretos

Mesmo que muitos projetos estejam concentrados em outras regiões do país, pesquisadores alertam que os impactos ambientais podem atingir diretamente a Amazônia por causa da interdependência entre os biomas brasileiros.

“Se os Data Centers forem instalados no Cerrado, bioma que concentra nascentes da maior parte das bacias hidrográficas do Brasil, isso impacta todas as regiões de alguma forma. Rios reconhecidos por seus pedaços Amazônicos, como Xingu, Tapajós e Tocantins nascem no Cerrado”, explica Yago Santos.

O pesquisador também relaciona a expansão tecnológica ao aumento da pressão sobre mineração, energia e conflitos territoriais na região amazônica.

“Concentrando água, territórios não destinados e falta de fiscalização e infraestrutura, nada garante que as secas geradas por IAs não gerem processos semelhantes na Amazônia, para abastecer outros setores econômicos, com migração em massa, exploração extrema dos trabalhadores e conflitos”, afirma.

Em meio à expansão acelerada das inteligências artificiais, especialistas alertam que o debate sobre tecnologia não pode ignorar os limites ambientais do planeta. Enquanto as IAs prometem revolucionar o futuro, o custo invisível dessa transformação já começa a aparecer na água que desaparece silenciosamente para manter servidores funcionando.

Mais recentes

EntretenimentoEventos

Panavueiro Fest ocorre em Parintins entre os dia 24 e 28 de junho

Realizado ao lado da Catedral de Nossa Senhora do Carmo, o Panavueiro Fest deste ano contará com atrações regionais, transmissão do Festival de Parintins e dos jogos da Seleção Brasileira
AmazôniaArte

Exposição em Nova York reúne três gerações de artistas indígenas da Amazônia

Mostra Riverlines apresenta obras de Chico da Silva, Joseca Yanomami e Kuenan Mayu e propõe um diálogo entre ancestralidade, território e arte contemporânea
Comunicação

Prêmio Vladimir Herzog recebe inscrições até 20 de junho para trabalhos sobre direitos humanos

Premiação reconhece produções jornalísticas, fotográficas, artísticas e literárias que contribuam para a defesa da democracia, da justiça e dos direitos humanos
EntretenimentoEventos

Teatro Amazonas recebe o espetáculo ‘O Seresteiro da Cidade dos Cactos’

Organizado pela escola de ballet clássico, Ballet Álvaro Gonçalves, o espetáculo ocorre no dia 28 de junho às 19h no, Teatro Amazonas
EntretenimentoEventos

Panavueiro Fest ocorre em Parintins entre os dia 24 e 28 de junho

Realizado ao lado da Catedral de Nossa Senhora do Carmo, o Panavueiro Fest deste ano contará com atrações regionais, transmissão do Festival de Parintins e dos jogos da Seleção Brasileira
AmazôniaArte

Exposição em Nova York reúne três gerações de artistas indígenas da Amazônia

Mostra Riverlines apresenta obras de Chico da Silva, Joseca Yanomami e Kuenan Mayu e propõe um diálogo entre ancestralidade, território e arte contemporânea
Comunicação

Prêmio Vladimir Herzog recebe inscrições até 20 de junho para trabalhos sobre direitos humanos

Premiação reconhece produções jornalísticas, fotográficas, artísticas e literárias que contribuam para a defesa da democracia, da justiça e dos direitos humanos
EntretenimentoEventos

Teatro Amazonas recebe o espetáculo ‘O Seresteiro da Cidade dos Cactos’

Organizado pela escola de ballet clássico, Ballet Álvaro Gonçalves, o espetáculo ocorre no dia 28 de junho às 19h no, Teatro Amazonas

Relacionadas

AmazôniaMeio AmbienteSociedade

Campanha orienta turistas sobre compra consciente de artesanato durante Festival de Parintins 2026

Iniciativa orienta turistas durante a temporada do festival sobre compra consciente de peças artesanais
AmazôniaMeio Ambiente

Exposição ‘Rio Marié – O Ouro da Pesca Esportiva’ abre visitação no Shopping Ponta Negra

Mostra apresenta registros sobre preservação ambiental, comunidades indígenas e pesca esportiva sustentável na Amazônia
Acessar o conteúdo