Ariel Bentes; 27/06/2020 às 15:15

Os desafios da população trans no Brasil e na região Norte

Ao mercadizar.com, transgêneros falaram sobre preconceitos, mercado de trabalho e o que não falar para uma pessoa trans

A identidade de gênero diz respeito à forma como alguém se identifica, ou seja, é independente ao seu sexo biológico. No artigo “Identidade de gênero? Orientação sexual? Quais as diferenças?”, Paulo Barros, psicólogo e coordenador do Núcleo de Atendimento Psicossocial Para a População LGBTQI+ em Boa Vista, capital de Roraima, explica que os indivíduos são socializados de acordo com o seu sexo biológico e não da forma como ele se identifica. Para ele, essa imposição faz com que pessoas performem na sociedade como homens e mulheres. 

“Por mais que existam forças que tentam nos controlar e nos dizer sobre como devemos ou não nos portar, nossos corpos criam fissuras em meio às normas, nos possibilitando agir de formas únicas. Por isso, podemos falar em identidadeS de gênero e orientaçõeS sexuais, no plural. Sendo assim, as pessoas que nascem com o sexo biológico masculino e se identificam com o gênero masculino (percebem-se enquanto homens) terão uma identidade de gênero chamada de cisgênero. Já, alguém que nasce com um sexo biológico masculino, mas, que a identidade de gênero é feminina (percebe-se como mulher) será uma pessoa transgênero”, disse ele. 

O  transgênero pode estar dentro ou não do contexto do binarismo homem e mulher, servindo como um termo “guarda-chuva’’ para todas as identidades que não se identificam com a cisgeneridade. O que muitos ainda desconhecem é que o T da comunidade LGBTQI+, além de abarcar o termo transgênero, também se refere a outros dois termos que possuem conceitos e vivências diferentes, sendo eles: travesti e transsexual. 

Travesti é uma identidade de gênero feminina, ao qual mesmo que a travesti invista em roupas e hormônios femininos, ela não sente desconforto com a sua genitália e a necessidade em fazer a cirurgia de redesignação sexual. Já o transexual está dentro do contexto do binarismo e é a pessoa que passa pela transição social, faz tratamentos hormonais e busca a cirurgia de redesignação sexual com o intuito de estar mais próximo da sua identidade de gênero.  

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), através do Índice de Estigma em relação às pessoas vivendo com HIV/AIDS, a população transexual e travesti é a que mais sofre com estigmas e discriminação no Brasil, tendo 90,3% já vivido uma situação de discriminação por conta da sua identidade de gênero. A organização também aponta que cerca de 74,2% já sofreu assédio verbal, 69,4% exclusão de atividades familiares, e 56,5% a agressão física, sendo assim, os tipos de violência que mais afetam essa população. 

Discriminações e transfobia podem se apresentar como violência física, moral ou psicológica e ainda estimula à população trans o enfrentamento de uma série de dificuldades no acesso à educação, saúde, mercado de trabalho e outros direitos básicos, assim os colocando em uma situação de vulnerabilidade social. 

45% dos estudantes afirmam que já se sentiram inseguros devido à sua identidade de gênero no ambiente escolar, de acordo com uma pesquisa feita pela Secretaria de Educação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transsexuais (ABLGBT), que ouviu cerca de 1.016 pessoas. Além disso, o recorte de gênero e sexualidade em pesquisas sobre evasão escolar é inexistente, mas associações regionais de defesa da população LGBTQI+ e promotores de justiça tem feito os seus próprios levantamentos locais. Com pequenas variações, de 70% a 85% da população trans já teriam abandonado a escola pelo menos uma vez na vida.

Quando se fala em mercado de trabalho formal, a realidade não é diferente. A legislação brasileira não possui uma medida específica para a comunidade trans que garanta espaço e incentive oportunidades nas empresas. Com isso, cerca de 90% dessa população utiliza a prostituição como fonte de renda, segundo a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). A associação também lançou uma cartilha com dicas para profissionais do sexo em tempos de covid-19, que você pode conferir clicando aqui

Thiago Costa, um dos fundadores do coletivo O Gênero ressaltou em entrevista ao Portal Mercadizar, outra problemática relacionada ao mercado de trabalho. “A comunidade muitas vezes faz a manutenção deste apagamento social que as pessoas trans sofrem. Um exemplo é quando se trata de emprego e as primeiras indicações são para LGBT’s, que estão bem próximos do padrão de beleza cobrado pela sociedade. Algumas pessoas trans não conseguem ter direito ao esquecimento porque tem muitos marcadores sociais que não deixam a gente se esconder”, disse.

O Brasil é considerado o país que mais mata travestis e transexuais no mundo. Segundo a Antra, em 2019 foram registrados 124 assassinatos e em 2018 foram 163 crimes no Brasil, apesar da queda, o dado representa um aumento de 114% em relação a 2008, ano em que a associação computou 58 casos. Fazendo um recorte da região Norte, o Pará é o estado com o maior número de mortes em 2018 com 10 casos e o Amazonas com cinco assassinatos em 2019. 

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De acordo com Bernardo Souza, morador de Manaus, informações sobre iniciativas para a população e personalidades presentes no Norte não estão na grande mídia. Para ele, a internet teve um papel fundamental na busca por colegas que tivessem uma realidade próxima a dele e o ajudassem no processo de transição. Hayub Thomé, Miss Trans Roraima e Rainha de bateria do bloco de carnaval Mujica, pontua os preconceitos vividos por ela e por outras pessoas da comunidade em Boa Vista:

“Ser trans em Roraima é lutar contra todo um sistema que vem mudando de pouquinho em pouquinho aqui e no mundo. Em Boa Vista, as trans sofrem muito com a marginalização, além de ser sinônimo de alguém que só pode fazer programa, ou ser só maquiadora e cabeleireira na vida. Não podemos limitar a capacidade de ninguém, pessoas trans podem ser o que quiserem. Agora imagine, em uma cidade pequena como Boa Vista, os números de preconceitos contra a comunidade LGBTQI+ são altíssimos e muitos ainda dizem que a violência e o preconceito são velados, mas eles batem todos os dias na nossa porta”, disse ela ao mercadizar.

O que não falar para uma pessoa trans? 

Para Rebeca Carvalho, vice-presidente da Associação de Travestis, Transexuais e Transgêneros do estado do Amazonas (Assotram), é comum que pessoas façam perguntas inconvenientes como, por exemplo, “Qual o teu nome verdadeiro?”. Rebeca ressalta que comentários como esse desconsideram o direito do uso do nome social, garantido pelo Decreto Nº 8.727 e publicado em abril de 2016. “Outra coisa que me deixa indignada é ouvir ‘Ah, você é tão bonita e feminina. Nem parece ser uma trans’. Eu sou uma mulher e eu sou feminina. Eu nasci mulher e dentro de mim eu sou uma mulher desde criança”, disse ela.

Já Hayub e Bernardo afirmam que usar o pronome correto é essencial. “Jamais me chame de ‘ele’ ou ‘o cara’, pois eu sou mulher, me visto assim 24 horas por dia e não faço procedimentos estéticos para ser chamada assim. Outra é ter que ouvir ‘Essa não é tua voz, né? Fala com a tua voz de ‘homem’. Isso é horrível e é uma falta de respeito”, explicou Hayub.

O papel das associações e coletivos para pessoas trans e sociedade 

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Organizações como a Assotram e o coletivo O Gênero, tem um papel de destaque na luta contra a transfobia e na divulgação de informações dentro da população trans e para a sociedade. Segundo Rebeca, hoje a Assotram cataloga os pontos de prostituição em Manaus e faz visitas nesses locais levando preservativos, informações e oferecendo assistência em casos de violência. “Fazemos também reuniões uma vez por mês, onde buscamos conscientizar todas sobre os seus direitos e deveres, além de construir meios para termos acesso à educação, empregos e saúde”. 

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O coletivo O Gênero, nasceu com o intuito de promover o empoderamento trans e auxiliar no acesso à cidadania, saúde e empregabilidade. Em entrevista ao mercadizar.com, Thiago Costa contou como o grupo foi criado:

“O Gênero surgiu da identificação a necessidade de acolhimento das novas masculinidades. Éramos 4 amigos que fazíamos psicoterapia com o mesmo psicólogo e decidimos fazer terapia em grupo por identificar demandas similares. Depois de um tempo fomos incluindo outros homens trans no grupo para orientações sobre processo de retificação de nome e gênero, indicação de profissionais de diversas áreas que tinham afinidade com a comunidade trans e que estariam dispostos a ajudar e atender sem uma visão julgadora sobre nossos corpos”, disse o integrante do coletivo.

Para acompanhar e ajudar o trabalho do coletivo, confira e entre em contato através do seu perfil @ogenerocoletivo no Instagram. 

A organização da comunidade transgênero através de associações e coletivos, é um grande e necessário passo para o entendimento e reconhecimento da importância para a visibilidade de pessoas trans no cenário escolar, universitário, além de empresarial e demais possibilidades de carreiras profissionais. Com a mídia, não é diferente, seja nas novelas, no jornal, ou na publicidade. A comunicação e o entretenimento tem um papel determinante nas questões sociais, que podem influenciar o comportamento e o modo de vida dos indivíduos e, dessa forma, ter uma representatividade trans nesses espaços, como foi o caso da atriz Glamour Garcia, a primeira atriz trans a ganhar um Troféu do Domingão – Melhores do Ano 2019, é levar uma diversidade e uma esperança para todas as telas brasileiras.

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