Identidade de gênero? Orientação sexual? Quais as diferenças?

Por
Paulo Barros
Há 4 meses atrás
Quem é Paulo Barros ?

Paulo Henrique Pinheiro de Barros (CRP 20/05793) é psicólogo graduado pela Universidade Federal de Roraima, Gestalt-terapeuta formado pelo Instituto de Gestalt-terapia de Roraima e Sexólogo formado pela Universidade de Araraquara. É professor na Formação Plena em Gestalt-terapia do Instituto de Gestalt-terapia de Roraima, sendo responsável pelo módulo de Gestalt-terapia e Diversidade Sexual. Coordena o Núcleo de Atendimento Psicossocial Para População LGBTQI+. Realiza atendimento psicológico (presencial e online) com adolescentes e adultos no Instituto de Gestalt-terapia, sendo também supervisor clínico na Abordagem Gestáltica.



Falar sobre sexualidade nunca é uma tarefa fácil, mas, não é impossível. Espero contribuir de alguma forma a partir das linhas que se seguem. Não tenho a intenção de estabelecer verdades absolutas, pois, o campo da sexualidade é extremamente mutável, não permanecendo o mesmo ao passar dos anos, por mais que muitas pessoas insistam em tratar tal temática com rigidez e conservadorismo.

Digo isto, pois, ao olharmos para a história da sexualidade, é possível perceber enormes mudanças sobre os significados em torno de ser homem e ser mulher. Mas, parte de nossa sociedade não sabe ou ignora esta informação, acreditando que as manifestações sexuais emergem de uma natureza que determina nossas identidades. Porém, vivemos em um mundo repleto de possibilidades, somos atravessados e atravessadas por questões sociais, culturais, espaciais e temporais. A sexualidade, portanto, é um fenômeno complexo, multideterminado, sempre em processo.

Logo, o que significa identidade de gênero e orientação sexual? Antes de conceituá-las, será necessário falar sobre gênero, outro conceito extremamente mal compreendido, logo, distorcido por determinados grupos sociais. Gênero, de acordo com Butler (2012), pode ser compreendido como a repetição de atos e gestos aprendidos culturalmente, que reforçam a ideia de corpos masculinos e femininos. Desde muito cedo, dependendo do sexo biológico (pênis ou vagina, por exemplo) com o qual nascemos, aprendemos como nossos corpos devem ou não se movimentar, sempre a partir da relação com o outro que nos diz o que podemos ou não sentir e pensar. Tal imposição, nos faria performar como homens e mulheres.

Porém, por mais que existam forças que tentam nos controlar e nos dizer sobre como devemos ou não nos portar, nossos corpos criam fissuras em meio às normas, nos possibilitando agir de formas únicas. Por isso, podemos falar em identidadeS de gênero e orientaçõeS sexuais, no plural. Sendo assim, as pessoas que nascem com o sexo biológico masculino e se identificam com o gênero masculino (percebem-se enquanto homens) terão uma identidade de gênero chamada de cisgênero. Já, alguém que nasce com um sexo biológico masculino, mas, que a identidade de gênero é feminina (percebe-se como mulher) será uma pessoa transgênero.

Quanto à orientação sexual, esta tem a ver com uma identidade que costuma (não é obrigatório) ser nomeada a partir dos afetos e desejos sentidos por uma outra pessoa. Um homem que sente atração afetiva/sexual por outro homem, poderá se identificar como gay; uma mulher que sente atração afetiva/sexual por outra mulher, poderá se identificar como lésbica. Percebam que utilizo a expressão “poderá”, pois, algumas pessoas não sentem necessidade de nomear-se enquanto gay, lésbica, bissexual, entre outras possibilidades. Portanto, identidade de gênero e orientação sexual são fenômeno diferentes, mas, que se cruzam. Somos plurais, não há um único humano que seja idêntico a outro, não há uma digital que seja idêntica a outra. Logo, quando falamos de sexualidade, as possibilidades são imensas e imprevisíveis, por mais que nos digam ao contrário. Nossas necessidades, desejos e afetos não são rígidos e universais. Cada corpo é único, cada sexualidade é única.

Fonte: Butler, J. P. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Ja neiro: Civilização Brasileira, 2012.


Essa é uma opinião do autor e não do Portal Mercadizar.


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