Em 2017, antes de existir um balcão, uma máquina de espresso ou qualquer plano concreto de abrir uma cafeteria, existia apenas uma ideia simples. Em Boa Vista, a advogada recém-habilitada na OAB, Marcela Moletta, começou a produzir miniterrários de cactos e suculentas montados dentro de canecas de café. Tudo acontecia no tempo livre, entre encomendas informais, postagens nas redes sociais e a curiosidade crescente das pessoas que acompanhavam aquele trabalho.

Os arranjos chamavam atenção pela estética, mas principalmente pela mistura pouco comum entre plantas e canecas de café. Aos poucos, os pedidos começaram a aumentar. O que inicialmente era apenas uma produção despretensiosa passou a ganhar forma de negócio.
Foi nesse período que Marcos Borges, publicitário e um dos futuros sócios do empreendimento, decidiu registrar um nome que representasse aquilo que estava surgindo. Nascia ali o Jardim Café. Na época, o nome não tinha relação com cafeteria. Era literalmente uma referência aos pequenos jardins montados dentro das canecas.
Com o crescimento das publicações nas redes sociais, começou um movimento curioso. As pessoas passaram a perguntar onde ficava a cafeteria, qual era o cardápio e quando poderiam conhecer o espaço. O detalhe é que a cafeteria ainda nem existia. As perguntas começaram a se repetir com frequência suficiente para provocar uma reflexão entre os sócios. Talvez existisse ali algo maior do que um produto artesanal.
A ideia de abrir uma cafeteria começou a amadurecer entre Marcos Borges, Marcela Moletta e Gabriel Petri. Naquele momento, eles perceberam que havia espaço para criar algo diferente em Boa Vista. Mais do que vender café, a proposta era construir uma marca com identidade própria, estética autoral e foco em cafés especiais, um segmento que ainda era pequeno na cidade.
Desde o início, o Jardim Café queria fugir do básico
A proposta combinava cafés especiais com um cardápio pouco comum para as cafeterias da cidade naquele período. Toasts, tostex e sanduíches com ingredientes como parma e pastrami começaram a desenhar uma operação que misturava conforto, técnica e personalidade.
A primeira unidade foi instalada em frente ao Parque Anauá. O espaço era pequeno. Dois containers somavam apenas 48 metros quadrados. A cozinha e a área de baristas ocupavam cerca de seis metros quadrados. O atendimento acontecia em oito mesas. Na equipe, além dos três sócios, havia apenas uma cozinheira e uma barista.
O primeiro cardápio trouxe produtos que mais tarde se tornariam marcas registradas da cafeteria. O toast avocado bacon e o avocado veggie ajudaram a apresentar uma linguagem gastronômica ainda pouco difundida na cidade. Ao mesmo tempo, o café assumia protagonismo desde os primeiros dias.
Logo na inauguração, a cafeteria já trabalhava com Aeropress, V60, prensa francesa e espresso. Também nasceram ali receitas próprias que seguem no cardápio até hoje, como o pão de queijo e o waffle produzidos com massa de pão de queijo.
Desafios
O negócio começou com recursos próprios. Parte do investimento veio dos honorários obtidos por Marcela na advocacia. Outra parte veio de trabalhos publicitários realizados por Marcos Borges. O crescimento inicial aconteceu sem financiamentos externos, baseado em reinvestimento constante dentro da própria operação.
Pouco antes da inauguração, surgiu mais um desafio. O Jardim Café atravessou o período da pandemia de Covid-19 já com ponto alugado, equipamentos comprados e parte da estrutura montada. Sem conseguir operar normalmente, os sócios encontraram uma alternativa para manter o projeto vivo: começaram a vender pacotes de cafés especiais pelas redes sociais.
A inauguração aconteceu em 9 de julho, aniversário de Boa Vista, ainda no período final da pandemia. Aos poucos, o Jardim começou a ganhar espaço na rotina da cidade.
Com o crescimento do público, veio a primeira grande mudança: a saída dos containers para um segundo endereço. O novo espaço tinha quase 200 metros quadrados e permitiu ampliar a operação. Foi ali que nasceu a microtorrefação da marca. No começo, a ideia era simples: reduzir custos relacionados ao café utilizado na cafeteria. Mas a torrefação cresceu rapidamente e passou a abastecer outras cafeterias, empresas e concessionárias de veículos, como Jeep e Toyota.
Ao mesmo tempo, o Jardim começou a se aproximar de produtores locais de café em Roraima. A proposta era ajudar a torrar, divulgar e comercializar cafés produzidos no estado, fortalecendo a cadeia local do café especial.
Parte desses cafés passou a ser vendida na própria cafeteria, sempre com destaque para a origem e para os produtores envolvidos. Com o tempo, o Jardim deixou de atuar apenas como cafeteria. Os eventos gastronômicos começaram a surgir de maneira quase espontânea.
Enquanto a operação crescia, a identidade da marca também amadurecia. O Jardim passou a ser associado à permanência, cuidado nos detalhes, hospitalidade e consistência. Mais do que um espaço para consumir café, a cafeteria começou a se transformar em um lugar de encontro e convivência.
Os próprios sócios costumam definir o Jardim como “um lugar que continua existindo enquanto a cidade muda ao redor”. Hoje, os fundadores reconhecem que a consolidação da marca passa diretamente pelas pessoas responsáveis pelo atendimento, pela cozinha, pelos cafés e pela rotina diária da operação.

O endereço atual
A mudança para o endereço atual marcou outra virada importante. Em janeiro de 2026, o Jardim precisou deixar o segundo imóvel após a solicitação de devolução feita pela proprietária. Era necessário encontrar um novo espaço, reformar o imóvel, adaptar a operação e reabrir rapidamente. Durante esse processo, os sócios começaram a olhar referências de cafeterias, bares e restaurantes instalados em antigos galpões industriais de grandes cidades. A ideia acabou influenciando diretamente o novo projeto.

O imóvel escolhido permitia integrar estacionamento próprio, ilha central de baristas, cozinha independente, estoque estruturado e áreas de apoio para a equipe. O novo Jardim foi inaugurado em 21 de fevereiro de 2026. Com aproximadamente 400 metros quadrados, o espaço marcou uma nova fase da marca. A operação ganhou mais estrutura, mais conforto e mais capacidade de crescimento.
O público respondeu rapidamente. Houve aumento de recorrência, crescimento no ticket médio e maior permanência dos clientes no espaço. Hoje, o Jardim atua com mais força na coquetelaria autoral, realiza eventos privados e recebe celebrações de diferentes formatos. O espaço já recebeu aniversários com cerca de cem convidados, DJs e apresentações musicais ao vivo.
O Jardim Café passou a se apresentar como Jardim — café, torrefação e bar. Uma definição que acompanha a expansão natural da marca ao longo dos últimos anos. Atualmente, cerca de 20 profissionais fazem parte da equipe. A operação cresceu, as funções ficaram mais especializadas e setores específicos passaram a cuidar da produção, finalização, atendimento e cozinha.
Hoje, o Jardim produz internamente doces, salgados, tortas, geleias, molhos, pães, massas e croissants. Da massa folhada dos croissants nasceu outro produto autoral da casa: as pizzas de massa folhada, uma das criações mais particulares do cardápio atual.
Os tostex e toasts seguem entre os itens mais vendidos da cafeteria. O sanduíche de pastrami também se consolidou como um dos grandes símbolos da casa. Depois de lançar um sanduíche de parma, os sócios decidiram estudar charcutaria e produzir o próprio pastrami, buscando mais controle sobre sabor, qualidade e identidade do produto.
Hoje, olhando para trás, os fundadores entendem que o crescimento do Jardim nunca esteve ligado apenas à estética ou às tendências do momento. O que sustentou a marca foi a consistência construída ao longo dos anos.
Mesmo nos períodos mais difíceis, a ideia de desistir nunca entrou no plano. Para o futuro, os sócios estudam ampliar ainda mais o trabalho realizado com produtores locais de café e avaliar novos horários de funcionamento. A expansão física não é prioridade imediata, embora continue sendo uma possibilidade natural para os próximos anos.
Enquanto novos projetos seguem em desenvolvimento, o Jardim continua carregando a mesma essência que deu origem à marca lá atrás, nos primeiros miniterrários montados em canecas de café.
Alguns lugares servem café. Outros acabam fazendo parte da memória da cidade.
