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Moda e sustentabilidade: Novos hábitos de consumo

Com a chegada da indústria 4.0, novos perfis de consumidores surgiram. Ainda mais conectados e com acesso instantâneo à informação, eles se tornaram mais exigentes e rigorosos com os produtos e serviços que utilizam. Agora, os consumidores são protagonistas de suas escolhas, reconhecem e reivindicam sua individualidade. Uma das mudanças mais marcantes nesse novo perfil de consumidor é a preocupação com o meio ambiente e, consequentemente, a cobrança pela sustentabilidade. Os millennials e a geração Z têm exigido cada vez mais que marcas e empresas tenham em vista práticas sustentáveis, se posicionem e estejam comprometidos com esses valores. 

Assunto em alta nos mais diversos setores que envolvem a produção industrial e outros segmentos – como agricultura, construção civil e beleza -, a sustentabilidade não pode ser mais ignorada. Existe uma preocupação decorrente da limitação de recursos disponibilizados pela natureza, assim como crescentes levantamentos que mostram que é preciso encontrar soluções que minimizem os danos causados pelas atividades humanas. 

Dados do relatório A new textiles economy: redesigning fashion’s future apontam que 1,2 bilhão de toneladas de gases de efeito estufa são liberadas no meio ambiente por ano em decorrência da indústria têxtil. Ainda de acordo com a mesma pesquisa, que aborda moda e sustentabilidade, US$ 500 bilhões são desperdiçados com peças de roupas pouco ou nada usadas, que são descartadas em aterros sanitários.

A indústria da moda tem um grande impacto ambiental. Atualmente, é responsável pela produção desenfreada de peças de roupas e calçados que abastecem as maiores redes de lojas varejistas, e que se atualizam constantemente lançando novos produtos ao mercado. Estima-se que marcas responsáveis por este abastecimento despejam cerca de 80 bilhões de peças de vestuário por ano. Nesse contexto, os impactos socioambientais dos processos de fabricação passam, na maioria das vezes, facilmente despercebidos aos olhares do consumidor final.

Quando o consumo das peças de vestuário é ditado pelo valor estético e as indústrias não medem esforços para manter o padrão consumista e impulsivo dos consumidores, o debate principal propõe sabermos como a sustentabilidade pode ser incorporada para rever hábitos e estilos de vida enraizados na sociedade. Os impactos da produção tradicional de roupas em larga escala no meio ambiente são prejudiciais e se estendem por todo o ciclo produtivo, como explica André Barbosa, jornalista de moda e sócio-fundador da MOTRIZ, empresa de consultoria em moda.

“Infelizmente, no rastro da produção de todas as cadeias industriais – sejam elas de moda ou não – sempre há emissão de gases poluentes na atmosfera, poluição de água, injustiça social e toneladas de resíduo, sem falar na realidade de que todo consumo gera lixo. Especialmente falando da moda, um tecido já causou uma série de impactos ambientais e sociais antes mesmo de chegar nas mãos do estilista, e depois dele, ainda passa por uma série de outros processos poluentes como tinturaria, lavagens, processos químicos e microplásticos levados para os oceanos. Em números, 1,2 bilhão de toneladas de gases de efeito estufa são liberadas no meio ambiente por ano em decorrência da indústria têxtil, 20 a 30% de tecido usado em cada peça é considerado resíduo (que não possuem descarte correto e vão para aterros sanitários), 35% de toda viscose do planeta (que tem vida útil muito baixa) é extraída de florestas por meio da celulose, a lavagem doméstica das roupas de tecido sintético liberam microplásticos, o que faz da moda o segundo maior poluente de água do mundo (na indústria ou em casa), e segundo o World Resources Institute, um instituto de pesquisas sem fins lucrativos, a indústria da moda produz 20 peças de roupa por pessoa por ano. Se a população da Terra é de cerca de 7 bilhões de pessoas, produzimos, em média, 140 bilhões de novas peças de vestuário a cada 365 dias. Isso significa que, todos os dias, nada menos que 383 milhões de peças são produzidas – são incríveis 4,4 mil peças por segundo”.

Para compreender os princípios de moda sustentável, torna-se essencial diferenciar os conceitos de fast fashion e slow fashion. O fast fashion é o termo utilizado por marcas que possuem uma política de produção rápida e contínua de suas peças, trocando as coleções de acordo com a sazonalidade e levando ao consumidor as últimas tendências da moda em tempo recorde.

Já o slow fashion é uma alternativa à produção em massa que incentiva que tenhamos mais consciência dos produtos que consumimos. O ponto central é retomar a conexão com a maneira em que eles são produzidos e valorizar a diversidade e a riqueza de nossas tradições, ter um tempo compatível para o processo criativo e produtivo responsável. Acima de tudo, está relacionado ao conceito de ser e não apenas ter, o que incentiva a consciência ética.

Grandes empresas do setor têxtil e da indústria da moda já investem para minimizar os impactos ambientais que elas geram. Marcas consagradas começaram a criar programas de reciclagem, por exemplo. Os avanços e investimentos que visam preservar o meio ambiente e estruturar uma produção inovadora não são apenas uma tendência — são uma necessidade real de um setor que sabe que o uso consciente de água e a transparência na cadeia de fornecedores, por exemplo, podem gerar um processo muito mais eficiente.

“Não por serem altruístas mas por entenderem que o consumidor está mais exigente quanto às suas escolhas de consumo, muitas empresas já estão trabalhando em projetos de redução do uso extensivo de água na produção, transparência nos custos, investindo em programas sociais que apoiem o produtor agrícola no início da cadeia, uso de tecidos com menos processos químicos como alvejantes e feitos a partir de algodão sem tantos agrotóxicos que podem poluir a água e o solo na hora do descarte, mas isso é uma demanda para as indústrias”, afirma André. 

No entanto, apesar da extrema importância das empresas, a iniciativa mais importante para que as mudanças nesse processo venham a acontecer deve partir do consumidor final. Como as ações individuais podem atuar minimizando essa problemática? A conscientização deve vir sempre em primeiro lugar, buscando analisar a procedência daquilo que for consumido. As escolhas devem acontecer de modo a prezar pela qualidade, durabilidade, utilidade e economia. Boas dicas são: evitar descartar roupas rapidamente, compartilhá-las ou vendê-las em brechós; reutilizar e/ou reciclar a fim de produzir novas peças e acessórios e analisar o tipo de tecido ou componentes utilizados sendo a escolha final aquela em que representar menos impactos socioambientais.

Como brechós podem ajudar a criar o hábito do consumo consciente?

O consumidor responsável está em busca de peças que tenham significado e provoquem diálogo. Ele sabe que pode ser agente transformador da sociedade a partir de seu ato de consumo. Durante muito tempo vistos de forma negativa só por venderem roupas que já foram utilizadas por outras pessoas, os brechós voltaram a ganhar força nos últimos anos. Demonstrando este novo rumo no consumo, eles têm sido cada vez mais procurados e criados, utilizando, principalmente, as redes sociais como principal plataforma de divulgação. 

https://www.instagram.com/p/B_dsSBxjSsq/

A decisão de comprar em brechós pode ser impulsionada com um consumo mais lento, como orienta o movimento slow fashion. Diferente das grandes lojas de departamento, que lucram com a venda de peças diferentes a cada estação e a terceirização dos processos produtivos, o slow fashion nos estimula a pensar em toda cadeia produtiva que faz a roupa chegar ao nosso guarda-roupas, como explica Renata Pinez, fundadora do Brechó 100K.

“A produção manufatureira, feita em grande escala, dificilmente é transparente. É incomum, enquanto consumidor, ter acesso às informações sobre produção de uma peça como quais as origens dos recursos utilizados, quem é e como funciona a remuneração de quem a produziu. Grandes e pequenos grupos estão envolvidos em escândalos ambientais e sociais para a produção têxtil. O consumo consciente quando aliado ao slow pode gerar impactos diretos nesses dois problemas já que as peças de segunda mão contribuem para a reutilização e diminuição de produção de resíduos, e o processo de curadoria tem a transparência como um pilar”, afirma. 

Os brechós são como verdadeiros recicladores de roupas. Além de representarem uma ótima opção para o consumo responsável, com preços acessíveis e peças bem conservadas, eles também são importantes para promover a economia local. “Através do processo de curadoria, os brechós apresentam peças que ao menos uma vez em sua vida já foram descartadas, o que significa um impacto direto na diminuição de resíduo têxtil descartado, além disso os brechós influenciam diretamente na economia local da cidade onde estão situados, pois geralmente o processo de vendas não inclui apenas o curador do brechó. É comum se ter uma costureira  para ajudar em pequenos reparos e um entregador auxiliando na logística de entregas o que incentiva uma economia circular”, explica Renata. 

Uma compra consciente demanda informação. Ao escolher entre uma peça de algodão puro e poliéster, por exemplo, o consumidor que está preocupado com as questões ambientais deve optar pela de algodão, que pode ser reciclada com facilidade. A moda precisa ser pensada de forma consciente, pois o que você compra e, principalmente, o que descarta, não é uma escolha pessoal. Devemos lembrar, antes de tudo, que estamos todos dividindo o mesmo planeta e recursos naturais. Agora, mais do que nunca, devemos repensar nossos hábitos de consumo para o futuro. 

“Se a moda é o reflexo do tempo em que vivemos e estamos no meio de uma pandemia reavaliando tudo o que nós já possuímos, o que não precisamos mais, pensamos duas vezes antes de fazer qualquer compra e estamos todos isolados, é natural que depois desse processo, as pessoas ponderem mais sobre seus hábitos de compra. Óbvio que sempre haverá os que compram por impulso independente do cenário geopolítico, mas tudo indica que, por conta da demanda do consumidor que está mais atento à sustentabilidade, a moda vai sim ser obrigada a traçar caminhos cada vez mais responsáveis (apesar de sabermos que o Brasil ainda é o 49º país no ranking global de sustentabilidade)”, analisa André Barbosa. 

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