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‘Ticar Bodó’: curta-metragem de alunos da UEA leva terror psicológico amazônico ao Festival Olhar do Norte

Na beira do rio, Jorge rema sozinho. A floresta se fecha em silêncio, a água reflete culpas que não se dissolvem, e o medo pulsa como se fosse um personagem à parte. É nesse universo de sombras e memórias que nasce “Ticar Bodó”, curta-metragem de terror psicológico realizado por estudantes da Universidade Estadual do Amazonas (UEA).

ticar bodó
Crédito: Mercadizar

O filme, que começou como um exercício de sala de aula, ganhou corpo com o esforço coletivo da primeira turma de Cinema e Audiovisual da universidade e agora chega à Mostra Amazônia, o carro-chefe do Festival de Cinema da Amazônia – Olhar do Norte, que será realizado entre os dias 17 e 21 de setembro, no Teatro Amazonas, em Manaus.

De uma frase na lousa ao palco do Teatro Amazonas

Tudo começou com um desafio acadêmico: cada estudante recebeu uma frase para criar uma narrativa. A escolhida pelo grupo foi “É a segunda vez que ele teve medo”. A partir dela, surgiu a ideia de um pescador que teme a água e, ao fisgar um peixe, ouve-o falar. O roteiro evoluiu em outras disciplinas e, com a união da turma, transformou-se em filme.

Para o diretor do curta e aluno Luís Eduardo S. Fernandes, o percurso foi surpreendente.

“Era só uma atividade da faculdade. Nunca imaginamos que o bodó iria nadar tão longe. Ver nosso filme na tela do Teatro Amazonas já é a realização de um sonho coletivo”, contou.

Terror psicológico com raízes amazônicas

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Crédito: Divulgação

O curta acompanha Jorge, um homem ribeirinho devastado pelo alcoolismo e pela morte da irmã. Entre a solidão e a memória, ele é assombrado por fantasmas interiores que ganham forma quase sobrenatural.

O peixe bodó, comum nos rios da região, se torna metáfora central dessa narrativa: um símbolo do peso da culpa que insiste em voltar à superfície. A escolha do gênero não foi por acaso. O terror psicológico, explica Luís Eduardo, surgiu da própria essência da frase que deu origem à história.

“A ideia do medo nos levou a explorar o psicológico do personagem e a atmosfera misteriosa da Amazônia. O sobrenatural aqui não é distante, ele nasce do próprio rio e da dor humana”, revelou.

A floresta como personagem

ticar bodó
Crédito: Divulgação

Responsável pela direção de fotografia, o estudante Evandro Fernandes enfrentou o desafio de transformar recursos limitados em linguagem cinematográfica. Para ele, a floresta era mais que cenário: era personagem.

“Usei a luz natural filtrada pelas árvores para criar um clima de isolamento. Tons terrosos refletiam o estado emocional do protagonista. Nas cenas mais intensas, recorremos à câmera na mão, para que o público sentisse o mesmo desequilíbrio do personagem”, explicou.

Mesmo com equipamentos básicos, os estudantes experimentaram técnicas de cinema, como o uso de lentes fixas para captar profundidade de campo e variações de cor que traduzem a passagem do frio psicológico à tensão quente do clímax.

A entrega do protagonista

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Crédito: Divulgação

No centro da narrativa está Abraão Leão, também aluno, que interpreta Jorge. Vindo do teatro e acostumado à comédia, ele viu no curta uma chance de se reinventar.

“Foi meu primeiro papel como protagonista no audiovisual. Sair das risadas para viver um homem destruído pelo luto me tirou da zona de conforto”, contou o ator.

Duas cenas o marcaram: a pescaria no rio – sua primeira vez remando – e a sequência intensa em que o personagem “tica” o bodó, carregando no gesto toda a fúria e o peso da culpa.

“Foi doloroso, mas libertador. Usei experiências pessoais como o luto para encontrar o caminho do Jorge”.

UEA e a construção de um cinema amazônico

O filme “Ticar Bodó” representa o amadurecimento de uma geração que começa a escrever a história do cinema no Amazonas. A coordenadora do curso, Gislaine Posetti, destaca que o projeto simboliza a potência da primeira turma da UEA.

“Por muito tempo consumimos olhares externos sobre a Amazônia. Agora, nossos estudantes assumem o protagonismo, valorizando nossas especificidades e criando uma estética própria”.

Ela lembra que o curso nasceu de uma demanda social e ainda enfrenta desafios estruturais e financeiros, mas reforça que o futuro já começou.

“A identidade amazônica está tatuada nos nossos estudantes. É essencial que falemos de nós, para nós e para o mundo”.

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