Sociedade

#MercadizarExplica: Racismo recreativo e a espetacularização do caso da Mulher da Casa Abandonada

Entre junho e julho deste ano, o podcast “A Mulher da Casa Abandonada” esteve entre as principais conversas dos brasileiros. Produção original da Folha de S.Paulo e apresentada pelo jornalista Chico Felitti, a série investiga Mari, que depois descobrimos ser Margarida Bonetti, moradora de uma mansão no luxuoso bairro de Higienópolis, em São Paulo, e integrante da lista de procurados do FBI, serviço de inteligência estadunidense.

Ao longo de sete episódios, a série esclarece quem é Margarida e os crimes com os quais está envolvida, que incluem manter uma funcionária negra em situação analóga à escravidão nos Estados Unidos durante cerca de duas décadas. Assim, o principal intuito da produção, segundo a própria Folha, é propor um necessário debate sobre escravidão moderna, visto que casos como este têm se tornado cada vez mais comuns no país e fora dele — a produção inclusive dedica um espisódio para mostrar essas histórias.

Desde o primeiro episódio, lançado em 8 de junho, “A Mulher da Casa Abandonada” se tornou um fenômeno nas redes sociais. Em matéria, a Folha destaca os números de audiência: até 19 de julho, data da publicação em questão, a série era uma das produções mais ouvidas no Spotify, com mais de 7 milhões de downloads nas principais plataformas de áudio, de acordo com a Triton. 

Algumas das funções do jornalismo são manter a sociedade informada, denunciar crimes, expor fatos e colocar pautas importantes em debate. Mas, neste caso, a recepção do público foi diferente do que era esperado pela própria produção. Embora trate de um tema contemporâneo importante e apesar do trabalho sério de jornalismo investigativo por trás da produção, o podcast, muito por conta das redes sociais, virou um espetáculo: em vez de os ouvintes se indignarem com o crime, uma parte deles transformou Margarida em celebridade, e a casa virou ponto turístico na capital paulista. O principal assunto tratado na série foi deixado de lado, e as pessoas passaram a ir para a frente do imóvel tirar fotos ou esperar uma aparição da mulher na janela. No Twitter e no TikTok, por exemplo, plataformas muito pautadas pelo entretenimento, o tema virou meme, piada e trend.

Durante 388 anos, o Brasil adotou o regime escravocrata. Foram mais de três séculos e meio em que pessoas pretas e indígenas foram desumanizadas, tratadas como objetos e obrigadas a trabalhar sem compensação, sem direitos e sofrendo violências. A sociedade se acostumou a ver as minorias dessa forma, e o racismo se enraizou na estrutura social. Apesar de existir uma data de “abolição” da escravidão, em 1888, nos dias atuais, a prática criminosa ainda existe e pessoas pretas, principalmente mulheres, são as maiores vítimas. 

O foco da série “A Mulher da Casa Abanadonada”, que deveria ser o debate sobre a escravidão contemporânea e como ela está, na maioria das vezes, atrelada ao racismo, foi deixado de lado. A pergunta que fica é: como um caso que envolve explicitamente racismo e escravidão, crimes contra a humanidade, pode ser tratado de maneira tão banal, recebendo até mesmo vieses sensacionalista e humorístico, enquanto Margarida Bonetti passou a ser tratada como uma ‘senhora que precisava de ajuda’? Este é mais um exemplo de muitos de como o racismo é normalizado e minimizado pela sociedade brasileira, principalmente pela parcela de classe média alta. 

Nesta situação, podemos fazer um recorte e enquadrar a banalização do preconceito e da escravidão sofridas pela vítima no racismo recreativo. As piadas, os memes e as trends que abordam o caso explicitam o tratamento dado a pessoas pretas no Brasil até os dias de hoje. Adilson José Moreira, autor do livro “Racismo Recreativo”, explica, em entrevista à BBC Brasil, que as piadas racistas, fantasiadas de brincadeiras, expressam um estereótipo do negro, colocando-o numa posição de alguém que não poderia ter respeito social. 

O conceito de racismo recreativo é justamente esse, segundo Moreira:

“O humor racista é uma forma com que pessoas brancas e instituições controladas por pessoas brancas expressam condescendência e ódio por minorias raciais, para reproduzir a ideia de que só pessoas brancas podem atuar de forma competente no espaço público.”

Esse comportamento de camuflar racismo por meio de ‘brincadeiras’ e ‘piadas’ vem de muito tempo e está enraizado na sociedade como uma consequência do racismo estrutural, levando à reprodução de estigmas e preconceitos. Utilizando o tom humorístico, o objetivo é expressar o racismo sem ‘o peso da chibata’, como explica a reportagem do projeto antirracista RioOnWatch. Mas, no final, as ‘brincadeiras’ e ‘piadas’, enquadradas como microagressões por Moreira, constrangem igualmente e não deixam de ser crime, além de afetar diretamente a saúde mental de quem é vítima desse preconceito. 

O combate ao racismo é e deve ser uma ação constante. Aliado a isso, o letramento racial é imprescindível para a educação antirracista: pessoas não pretas, por exemplo, precisam compreender o contexto das relações sociais e como desconstruir preconceitos. De acordo com a socióloga Neide de Almeida, é necessário entender que nossa sociedade foi e está organizada a partir de uma perspectiva eurocêntrica e orientada pela lógica do privilégio do branco. 

“É preciso compreender como o racismo é construído e mantido, política e ideologicamente. Para isso, é essencial conhecer a história dos diferentes povos que estão na origem de nossa sociedade e de nossas identidades”, explica em artigo

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