“E se eles quisessem se vingar da escravidão agora?”

Por
Patrícia Patrocínio
Há 5 meses atrás
Quem é Patrícia Patrocínio?

Estudante de Relações Públicas da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e da questão negra pra se entender e entender seu papel na luta. Marginal influencer das redes sociais e vive o hip hop desde 2012.



Segundo o site Brasil Escola, a palavra genocídio (do grego genos – tribo, raça; e do latim cide – matar) é usada para fazer referência ao ato de exterminação sistemática de um grupo étnico. Os dados do Atlas da Violência de 2019 demonstram que em uma década (2007 a 2017) a taxa de homicídios de negros brasileiros aumentou em 33,1%, assim representamos 75,5% das vítimas de homicídios. O jornal O GLOBO publicou uma matéria, no dia 12/04, em que contabilizava as operações policiais nas favelas do Rio de Janeiro, desde o inicio do mês de abril, as operações nesse período dobraram em relação ao mesmo período do ano passado, quando não havia quarentena, vale lembrar, que as favelas são locais racializados.

O Instituto de Segurança Pública (ISP) registrou no ano de 2019 o recorde em mortes causadas por agentes de segurança no estado do Rio de Janeiro. A taxa de negros mortos pela polícia é de 75,4%, segundo o Relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Os dados levantados provam que a violência policial no Brasil não é só autorizada pelo Estado como tem ordens precisas de cor, classe e território. O assassinato de corpos negros não é um fenômeno extraordinário ou que gere grande espanto na população brasileira pela sua previsibilidade. As estatísticas são a própria expressão do racismo como um dos pilares formadores dessa sociedade.

No Brasil e nos Estados Unidos, o período da escravidão não é o único ponto em comum. A construção do racismo estrutural, institucional, ambiental e cultural foi fundamental para tornar à violência contra indivíduos negros um modus operandi em ambas as sociedades: João Pedro, 14 anos, baleado com um tiro de fuzil em uma operação conjunta das polícias civil e federal do Rio de Janeiro no Complexo do Salgueiro; George Floyd, 46 anos, mesmo imobilizado, foi morto asfixiado pelo policial Derek Chauvin em Mineapolis, que ficou ajoelhado sobre o seu pescoço durante 8 minutos e 46 segundos. No mais, é humanamente impossível citar todos os casos que ocorrem diariamente. Vou me ater a esses dois pela grande repercussão que tiveram nas últimas semanas.

O assassinato de Floyd, afro-americano, gerou uma onda de revoltas. Foram registrados uma série de protestos e ataques às delegacias de Mineapolis e de outras cidades do país. Segundo o Sistema Nacional de Estatísticas Americano, por dia, cerca de três americanos são mortos pela polícia. No Brasil, o número de mortes diárias por essa mesma instituição é quase o sêxtuplo. Os negros no Brasil correspondem por mais da metade da população, o que significa 42,7% a mais que a população negra dos Estados Unidos que soma 12,3%. Fica explícito que a violência contra negros nos Estados Unidos é inferior se comparada ao Brasil. Mas por que a morte de João Pedro, jovem negro, não gera protestos tão intensos como os que estamos acompanhando nos Estados Unidos pela morte de George?

O racismo levou séculos para ser construído. Apesar de Brasil e Estados Unidos compartilharem o mesmo legado histórico escravocrata seria equivocado pensar que o processo de incorporação da narrativa racista de inferiorização de negros pela estrutura social e suas instituições se daria complemente da mesma maneira ou se desconstruiria tão rapidamente nessas sociedades. No Brasil, nunca houve uma política explicita de segregação racial como ocorreu nos Estados Unidos após a abolição.  Em contra partida, a falta de políticas explícitas de segregação racial no Brasil não nos transformou no “paraíso racial” como muitos acreditam e ainda defendem, pois quando analisamos os dados estatísticos vemos neles a cor nítida e expressiva: PRETA.

A segregação racial nos Estados Unidos impôs ao povo negro a necessidade do desenvolvimento de instituições independentes, permitindo a formação política de lideranças afro-americanas, favorecendo, o surgimento de movimentos de massas como os liderados por Martin Luther King, Malcolm X, Andrew Young, Jesse Jackson, entre outros. No Brasil o cenário é outro, turvo, o mito da democracia racial corroborou para que o estado brasileiro fingisse uma cegueira e negasse a existência do racismo por séculos. A sociedade brasileira foi construída sob um pilar fantasioso e desonesto de harmonia racial e igualdade, o acesso de negros mesmo que expressamente inferior em relação aos brancos nas instituições básicas, criou uma flexibilização da casta racial.

As políticas de embraquecimento adotadas pelo estado brasileiro nos séculos XIX e XX também contribuíram para o processo da diluição da identidade afro-brasileira com a divisão da categoria negra em pretos e pardos. Essa divisão criou uma espécie de contrato racial em que negros de pele clara, “pardos”, podem fazer com a branquitude – a rejeição a negritude- o que nunca foi possível nos Estados Unidos. A autoafirmação da identidade negra significa resistir, não se curvar ao branqueamento, o que para muitos “pardos” causa relutância. É comum no Brasil, vermos negros de pele clara performando uma branquitude ou o mais próximo que podem chegar disso, mas esse problema não mora só na necessidade de se tornarem “mais toleráveis” em espaços brancos, ele é a ponta do iceberg para um problema ainda maior: as consequências do apagamento do ensino da história do negro no Brasil. A primeira lei que propõe novas diretrizes curriculares para o estudo da história e cultura afro-brasileira e africana foi assinada em 2003, mas para esse ensino realmente ser eficiente requer transformações em outras instancias, inclusive, a acadêmica.

A falta de conhecimento da contribuição do povo negro para criação dessa sociedade, somada a diluição da identidade criada pelas políticas de embraquecimento dos séculos passados criou um fenômeno brasileiro curioso: negros que não sabem que são negros, mas que não ficam isentos de sofrer a violência racial, no entanto, por não se reconhecerem como tal não sabem identificá-las. A indignação moral contra o racismo, bem como a identificação dele na sociedade se torna mais difícil de ser combatida, mesmo que sejamos mais da metade da população brasileira. No Brasil, construímos o que o antropólogo Roberto da Matta chamou de Racismo à Brasileira. A banalização do genocídio do preto brasileiro é uma verdade que o Estado e a sociedade se recusam a encarar: somos um país genocida, e essa é a principal evidência da existência desse racismo complexo, silencioso, sutil e tão difícil de ser combatido: como combater aquilo que as pessoas não enxergam ou se recusam a ver?

Mesmo que o movimento Negro Brasileiro seja o maior exemplo da resistência afro-brasileira em relação ao racismo silencioso e a tentativa constante do estado de nos invisibilizar, ele só ganhou força e progressão desde a abolição. A falta de um movimento de massa brasileiro como nos Estados Unidos, está relacionado ao tal racismo à brasileira: silencioso e sutil, mascarado na ideia da democracia racial que gera problemas de diluição da identidade negra e passa para a sociedade a falsa impressão de igualdade.

O assassinato e sequestro de João Pedro pela policia civil e federal do Rio de Janeiro, revela o que esta acontecendo no plano de fundo do cenário da pandemia e o foco da mídia se encontra no momento na doença que afetou milhares de brasileiros. O racismo no Brasil e a falta do ensino eficiente da história afro-brasileira e africana impedem que a população brasileira acorde a sua indignação moral em relação ao genocídio histórico que ocorre nesse país.

Agora, é o momento da imaginação!

Pense nos protestos que estão acontecendo nos Estados Unidos neste momento, nas inúmeras violências que o povo preto vem sofrendo desde o século XV, na violência policial em especial a que matou João Pedro EM CASA. Pense em Marielle, Jenifer, Kauan, Kauê, Aghata e Ketlheen, Amarildo, Edward, Claúdia e George. Pense na violência dos açoites, dos estupros da tão “gloriosa” miscigenação. Pense nos 23 minutos que faltam para mais um preto morrer. Pense nas operações policiais nas favelas. Pense na desigualdade histórica do Brasil, Pense em como essa epidemia está atingindo os negros. Volte a pensar agora na “violência” dos protestos dos Estados Unidos. E então fazendo alusão ao verso de Emicida que deu o título a esse texto, imagine:

E se os pretos daqui decidissem se vingar de tudo isso agora?


Essa é uma opinião do autor e não do Portal Mercadizar.


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