Hilana Rodrigues; 13/09/2021 às 11:00

O mundo invertido da TV

As antigas cenas de rivalidade entre as emissoras então dando vez ao tratamento cordial

Até quem não é acompanhante assíduo das programações da televisão deve saber que sempre existiu certa rivalidade entre as emissoras brasileiras, o que perdura desde o início de sua criação.

Esse atrito se dá porque, assim como grande parte das coisas no mundo, os donos dos grupos televisivos trabalham para terem a maior audiência possível, gerando assim o lucro esperado se mantendo entre os mais assistidos.

Para quem acompanha há anos, entende que essa rivalidade não era coisa pequena. Até citar o nome da rival era proibido, para evitar que acarretasse em uma propaganda acidental e, quando citado por acidente, o som poderia ser censurado ou desconversando.

Porém, mesmo com essa rivalidade, havia um certo acordo sobre programações de cada canal, já que se houvesse algo semelhante também poderia gerar ibope para a opositora. Um exemplo a ser citado são as típicas novelas mexicanas ou infantojuvenis, quase uma marca registrada do SBT, ou as antigas séries policiais e fantasias da Record, assim como as novelas com temas e cenas modernas da Globo.

Rivalidade nostálgica

Essa rivalidade chegou a ser tão forte que há um episódio protagonizado por emissoras que até hoje repercute bastante. Em 1988, após o SBT contratar o ex-global Jô Soares, a rival resolveu responder colocando o filme “Rambo II” no mesmo dia e horário em que o SBT já havia programado para exibir “Rambo”, o primeiro filme da série.

Imaginando o resultado dessa resposta, a emissora de Silvio Santos suspendeu o filme, reprisando o programa sertanejo Musicamp e exibindo na tela um slide com a mensagem em texto: “Quem procura acha o Rambo na Globo”, um trocadilho ao slogan do SBT durante a década de 1980, “Quem procura, acha aqui”.

A exibição de “Rambo” ficou para a semana seguinte quando, como contragolpe, a emissora carioca anunciou que iria transmitir capítulo duplo da novela “Vale-Tudo”, sucesso da época. Porém, não ficando por baixo, o SBT em letras garrafais, estampou a tela com os dizeres: “Não se preocupe, quando terminar a novela da Globo, você vai ver: RAMBO”.

O resultado dessa interessante troca de provocações foi um sucesso de ibope para o SBT, além de ter sido a primeira vez que a Globo respondeu a outra emissora, coisa que atualmente é frequente.

Mix de emissoras

O que antes rendia saudosos e divertidos atritos, agora é algo comum entre os canais. A rivalidade continua presente em forma de criação de conteúdo para ainda ser a mais assistida e geradora de lucro, mas a censura em comentar sobre a outra não existe mais.

Atualmente é mais que natural haver uma troca de atrizes e atores entre as emissoras, em que as novelas mal terminam e a concorrente assina contrato com o artista, porém, raramente as empresas se manifestavam quando alguém de destaque migra.

Entretanto, nos últimos anos vimos uma interação maior e até um tratamento cordial entre os canais como o “empréstimo” de artistas para participação em programas. Alguns exemplos são de atores globais no Teleton, do SBT, apresentadores da Band em entrevistas na Globo e até mesmo propagandas comerciais unindo apresentadores de diferentes canais, como o caso da Riachuelo com Ana Maria Braga e Kátia Fonseca.

Esse mundo invertido da televisão pode ser percebido com a presença do apresentador Marcos Mion no Caldeirão, novelas mexicanas no Globoplay, Luciano no Domingão, Faustão na Band, anúncio do Globoplay no SBT, entre muitos outros que jamais poderíamos cogitar.

Exceções

Talvez você se pergunte se essa interação seria o início de uma nova era televisiva em que as emissoras são amigas. Se por acaso tiver essa dúvida, a resposta é “não”. Como já citado, elas trabalham pela audiência e seus ideais, que são diferentes entre si.

Principalmente entre a Record e Globo, que dentre as outras emissoras são as exceções de amigabilidade e que ainda é possível perceber uma forte ausência de interação e cordialidade, principalmente por conta do viés político que rege as programações e bastidores de produção.

Já entre as demais, podemos dizer que essa atual camaradagem entre os canais se dá devido a presença de tantos serviços de streaming, populares por sua vasta opção de entretenimento. A televisão como produtora de conteúdo também precisa se inovar e romper algumas barreiras para não ficar em desvantagem.

Com o frequente uso das redes sociais e a divulgação, muitas vezes espontâneas, entre os usuários ao perceberem algo novo no meio virtual ou real, a televisão também se faz presente em outros meios de comunicação, como o Twitter, se mantendo na mente dos telespectadores até por meio de aplicativos.

Se antes a rivalidade era o que gerava pontuação de audiência, hoje em dia essa interação harmoniosa é justamente o que os coloca no trending topics das redes sociais, afinal, não é sempre que vemos os canais agindo como parceiros, o que acaba por gerar a audiência que a TV precisa para se manter.

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