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Festival Folclórico de Parintins: como as indumentárias contam histórias

Arte: Mercadizar

Entre batuques, cores e tradições, o Festival de Parintins se consagra como uma das maiores expressões culturais do Brasil. No embate entre Caprichoso e Garantido, um elemento se destaca pela beleza e força simbólica: as indumentárias. Mais que vestimentas, elas são obras de arte carregadas de histórias que ganham vida na arena.

Para os estilistas que assinam esses figurinos, cada detalhe tem um propósito — do bordado minucioso à escolha da paleta de cores. “Cada indumentária nasce de uma conexão muito profunda com a história que ela precisa contar”, explicou Kaleb Aguiar, designer de moda e figurinista do Boi Caprichoso. Seu processo criativo começa com pesquisa e escuta:

“É preciso entender o tema da noite, o enredo e o papel do personagem. A partir disso, faço esboços, escolho materiais, texturas, cores. Tudo é pensado para que a peça tenha vida própria. A construção é feita com muito cuidado artesanal, respeitando as técnicas, mas sempre buscando inovação.”

A mesma atenção à narrativa está presente no trabalho de Rafael Andrade, figurinista parintinense do Boi Garantido. Atuando na criação de figurinos para itens como Porta-Estandarte, Cunhã-Poranga e Rainha do Folclore, Rafael destaca que o processo varia conforme o contexto:

“Quando se trata da arena, já existe uma paleta e uma temática definidas. A partir disso, busco texturas, referências visuais e simbólicas que dialoguem com a história que está sendo contada.”

Mesmo sem palavras, as indumentárias falam — e alto. Para Kaleb, o figurino é uma “fala silenciosa” no festival, que se comunica por meio de formas, brilhos e cores.

“Quando o tecido se move, quando o brilho reflete a luz, quando um detalhe remete à floresta ou à cultura indígena, o público entende”, declarou.

Rafael concorda.

“Gosto de contar uma história com cada figurino, mesmo fora da arena. Quando tenho liberdade criativa, busco sempre alguma conexão com a natureza e com a floresta”, afirmou.

Um exemplo disso é o figurino criado por Rafael Andrade para a Porta-Estandarte do Garantido, Jeveny Mendonça, durante o lançamento do álbum de 2025 do Boi. Inspirado em libélulas e na energia da floresta, a peça ganhou asas, cores vibrantes e uma estética encantada.

“Trabalhei a ideia dos seres elementares e sua relação com a natureza. Quis transmitir leveza, magia e alegria”, ressaltou o artista.

Foto: Yasmin Cadore

Na arena, onde o impacto visual precisa ser imediato, as cores desempenham papel crucial.

“A paleta é o que causa o primeiro impacto. Depois, a pessoa começa a perceber os detalhes, e é aí que entra a minha assinatura: muito trabalho manual, muitos elementos decorativos”, complementou Rafael Andrade.

Entre suas criações mais marcantes, ele relembra o figurino usado pela Porta-Estandarte Daniela Tapajós em 2022.

“Naquele ano, quebrei o padrão. Transformei elementos que antes iam na costeira em aplicações no corpo da roupa. O resultado foi um visual mais leve nas costas e cheio de detalhes no corpo do figurino. O efeito na arena foi muito forte. Foi um ponto de virada para mim”, disse.

Foto: Reprodução/Internet

Kaleb Aguiar também aposta na força simbólica dos detalhes. No vestido usado por Valentina Cid, Sinhazinha da Fazenda do Boi Caprichoso, ele trabalhou com referências da natureza amazônica.

“Usei aplicações manuais que simulavam flores e folhas nativas, além de bordados que contavam visualmente a história da personagem naquela noite”, explicou.

Foto: Lamego

Para ambos os artistas, as indumentárias do festival vão além da estética.

“Elas têm um papel fundamental de contar a nossa história, nosso cotidiano”, resume Rafael. Já Kaleb vê o figurino como uma expressão estética, mas também política, social e afetiva. “As indumentárias não são só figurinos: são parte da narrativa, do espetáculo, da alma do boi.”

Além de arte, são memória e pertencimento.

“A moda aqui é cultura viva. Ela carrega saberes ancestrais e também reflete mudanças sociais. A cada ano, nos reinventamos”, reiterou Rafael Andrade. Ele lembra que até mesmo questões de gênero e representatividade influenciam as criações. “A mulher é muito exposta no festival, então a indumentária também funciona como armadura, unindo a força do personagem com a do figurinista.”

Kaleb reforça essa visão.

“As indumentárias não são apenas adereços: elas fazem parte da narrativa, do espetáculo, da identidade do povo. São, ao mesmo tempo, manifestação estética e afirmação cultural”, finalizou.

Foto: Reprodução/Internet

Em Parintins, vestir não é apenas adornar. É escrever, em penas, miçangas e tecidos, as histórias que o povo amazônida carrega no peito. E, a cada ano, os bois renascem, costurados à mão, ponto por ponto, história por história.

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