Sociedade

Dia do Patrimônio Histórico Nacional: patrimônios que preservam a memória da região Norte

De teatros e mercados a fortalezas, centros históricos e antigas ferrovias, construções preservadas ajudam a contar diferentes capítulos da história amazônica

Celebrado em 17 de agosto, o Dia do Patrimônio Histórico Nacional chama atenção para a preservação de bens que ajudam a contar a história do Brasil. Na região Norte, esse patrimônio aparece em construções que atravessaram diferentes períodos e continuam presentes na paisagem das cidades.

No Norte do Brasil, a história também está nas ruas, nas fachadas e nos prédios que atravessaram diferentes momentos de formação das cidades. Em Manaus, Belém, Macapá, Xapuri, Porto Velho, Natividade, Porto Nacional e Bonfim, espaços protegidos pelo patrimônio histórico guardam registros de diferentes gerações e de momentos importantes para a formação da região.

Imagens: Wikipedia/Semcom Manaus/Secom-GEA/Prefeitura de Porto Velho

Amazonas

Manaus reúne um conjunto de construções que registra principalmente o período de expansão econômica provocado pelo ciclo da borracha. O centro histórico da capital foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2012 e conserva edificações construídas durante diferentes fases do desenvolvimento urbano da cidade.

Teatro Amazonas

Inaugurado em 1896, o Teatro Amazonas foi construído durante o auge da economia da borracha. Naquele período, a riqueza gerada pelo látex impulsionou mudanças na estrutura urbana de Manaus e criou uma demanda por espaços destinados às companhias de espetáculos que chegavam à cidade.

O projeto foi elaborado pelo Gabinete Português de Engenharia e Arquitetura de Lisboa, e o edifício recebeu materiais e elementos decorativos de diferentes partes do mundo. O teatro foi tombado pelo Iphan em 1966 e se tornou um dos principais exemplares da arquitetura do período na capital amazonense.

Em julho de 2026, o Teatro Amazonas passou a integrar a Lista do Patrimônio Mundial da Unesco, junto ao Theatro da Paz, em Belém. Os dois formam o conjunto Teatros da Amazônia, reconhecido por representar o intercâmbio entre influências artísticas e tecnológicas europeias e as características da paisagem e da cultura amazônica.

Mercado Municipal Adolpho Lisboa

À margem do Rio Negro, o Mercado Municipal Adolpho Lisboa também nasceu durante o período de crescimento da cidade. Construído em 1883, o espaço foi inspirado nos mercados europeus e se destaca pelo uso de estruturas de ferro, característica marcante da arquitetura daquele período.

O mercado foi tombado pelo Iphan em 1º de julho de 1987 e é considerado pelo instituto um dos principais exemplares da arquitetura de ferro em Manaus. A construção continua exercendo sua função comercial e mantém no centro da cidade uma atividade que atravessa diferentes momentos da história manauara.

Largo de São Sebastião e Igreja de São Sebastião

No entorno do Teatro Amazonas, o Largo de São Sebastião integra uma área diretamente relacionada à formação do centro histórico de Manaus. A praça e os edifícios ao seu redor ajudam a preservar a configuração urbana construída durante o período de transformação da cidade no final do século XIX.

A Igreja de São Sebastião, localizada no largo, também faz parte desse conjunto arquitetônico. O espaço público e o templo estão associados ao Teatro Amazonas e ajudam a formar uma das áreas mais representativas da paisagem histórica de Manaus. O próprio dossiê dos Teatros da Amazônia considera o Largo de São Sebastião um dos espaços públicos associados ao patrimônio reconhecido pela Unesco.

Pará

Belém também passou por profundas transformações durante o ciclo da borracha. A posição da cidade como importante porto da Amazônia fez com que a capital paraense se tornasse um dos principais centros comerciais da região. Seu patrimônio material reúne construções de diferentes períodos, especialmente nos bairros históricos da Cidade Velha e da Campina.

Theatro da Paz

Inaugurado em 1878, o Theatro da Paz foi construído durante o período de crescimento econômico relacionado à exploração da borracha. O edifício foi pensado para receber grandes companhias de espetáculos e refletia o processo de modernização pelo qual Belém passava naquele momento.

O teatro foi tombado pelo Iphan em 1963. Em julho de 2026, recebeu, junto ao Teatro Amazonas, o reconhecimento como Patrimônio Mundial da Unesco, passando a integrar o conjunto Teatros da Amazônia. A candidatura destacou a arquitetura dos dois teatros e sua relação com as transformações urbanas e culturais provocadas pela economia da borracha.

Complexo do Ver-o-Peso

Às margens da Baía do Guajará, o Complexo do Ver-o-Peso concentra construções e espaços ligados à atividade comercial de Belém. O conjunto foi tombado pelo Iphan em 1977 e inclui o Mercado de Ferro, o Mercado de Carne, a Praça do Relógio, a Doca, a Feira do Açaí, a Ladeira do Castelo e o Solar da Beira.

A área se consolidou ao longo da história como um dos principais pontos de circulação de mercadorias da capital paraense. Atualmente, o Ver-o-Peso continua integrado à rotina de Belém, reunindo feirantes, pescadores, produtores e consumidores e mantendo uma função comercial que atravessa gerações.

Amapá

Fortaleza de São José de Macapá

À margem do Rio Amazonas, a Fortaleza de São José de Macapá registra um período em que a ocupação e a defesa do extremo norte estavam entre as preocupações da Coroa portuguesa. A construção começou no século XVIII e foi inaugurada em 19 de março de 1782, no dia dedicado ao santo que dá nome à fortificação.

A obra foi realizada com participação de mão de obra negra e indígena e apresenta estruturas defensivas como fosso, redentes, revelim e caminho coberto. Pela dimensão e complexidade de sua engenharia militar, a fortaleza se tornou um dos principais exemplares de arquitetura militar do período no Brasil.

O monumento foi tombado pelo Iphan em 1950, por sua importância histórica e arquitetônica. Atualmente, além de patrimônio protegido, a fortaleza funciona como espaço de cultura e lazer em Macapá. Em 2026, também aparece na lista indicativa brasileira para uma futura candidatura a Patrimônio Mundial, dentro do conjunto das fortificações brasileiras.

Acre

No Acre, a história do patrimônio material está diretamente relacionada à ocupação do território, ao ciclo da borracha e à trajetória dos chamados povos da floresta. Entre os bens protegidos pelo Iphan está uma casa que se tornou referência para a memória de uma das principais figuras da história socioambiental brasileira.

Casa de Chico Mendes

Localizada em Xapuri, a Casa de Chico Mendes foi a residência do seringueiro, sindicalista e líder socioambiental assassinado em 1988. O imóvel foi o primeiro bem do Acre tombado pelo Iphan e teve seu reconhecimento federal formalizado em 2007, junto ao acervo da casa.

A construção é uma residência simples, mas sua importância está diretamente relacionada à história de Chico Mendes e às lutas dos trabalhadores dos seringais pela permanência na floresta. A casa se tornou um espaço de memória sobre sua trajetória e sobre os movimentos socioambientais que ganharam força no Acre nas décadas de 1970 e 1980.

A localização também faz parte da história do imóvel: a casa fica próxima ao Rio Acre e à floresta, características que exigem cuidados específicos para sua conservação. Em 2024, o espaço foi reaberto para visitação após medidas de proteção do imóvel e do acervo diante de riscos de alagamento e incêndios florestais.

Rondônia

A formação de Porto Velho está profundamente ligada à construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. A ferrovia marcou um período de grandes obras na Amazônia e deixou um conjunto de estruturas que permanece como um dos principais patrimônios históricos de Rondônia.

Estrada de Ferro Madeira-Mamoré

Construída entre 1907 e 1912, a Estrada de Ferro Madeira-Mamoré tinha 366 quilômetros e ligava Porto Velho a Guajará-Mirim, na fronteira com a Bolívia. A construção fazia parte de um acordo relacionado à integração territorial e ao escoamento da produção de borracha amazônica.

A obra foi realizada em condições extremamente difíceis. Os trabalhadores enfrentaram doenças, acidentes e as dificuldades impostas pela floresta e pelos rios da região. A própria criação de Porto Velho está ligada à construção da ferrovia, já que a cidade se desenvolveu para atender às necessidades da obra e da operação ferroviária.

A ferrovia deixou de funcionar ao longo do século XX, mas parte de suas estruturas permanece preservada em Porto Velho. O Conjunto Histórico, Arquitetônico e Paisagístico do Pátio Ferroviário da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré é protegido pelo Iphan e reúne bens relacionados à antiga ferrovia.

Tocantins

Natividade e Porto Nacional ajudam a contar uma parte da história do Tocantins que antecede a criação do próprio estado, em 1988. As duas cidades pertenciam ao antigo norte de Goiás e cresceram em períodos ligados à mineração e à circulação de pessoas e mercadorias pelo interior do país.

Natividade

A história de Natividade começou em 1734, com a formação do antigo Arraial de São Luiz, durante a expansão da mineração. A descoberta de ouro fez da região um dos principais arraiais da antiga Capitania de Goiás e influenciou diretamente a formação das ruas e construções que permanecem na cidade.

O conjunto arquitetônico, urbanístico e paisagístico de Natividade foi tombado pelo Iphan em 1987. A área preservada mantém ruas estreitas, casarões e igrejas que revelam diferentes períodos econômicos: as fachadas mais simples estão associadas à mineração do século XVIII, enquanto construções mais ornamentadas refletem a expansão da pecuária no século XIX.

Entre os bens protegidos estão a Igreja de Nossa Senhora da Natividade, a Igreja de São Benedito e as ruínas da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. A preservação do conjunto mantém parte do traçado urbano original da cidade e ajuda a registrar a formação histórica do atual Tocantins.

Porto Nacional

Porto Nacional também tem sua história ligada à mineração, mas ganhou importância por sua localização às margens do Rio Tocantins. A cidade se tornou um ponto de circulação de pessoas e mercadorias e, posteriormente, um entreposto comercial ligado às rotas fluviais da região.

O centro histórico foi tombado pelo Iphan em 2008. A área protegida reúne cerca de 250 edificações, além de ruas, largos e praças, abrangendo construções que vão desde a fundação do município até a década de 1960.

Entre os destaques está a Catedral Nossa Senhora das Mercês, construída entre 1894 e 1904 pelos freis dominicanos. O templo foi projetado no estilo românico de Toulouse, na França, e recebeu imagens sacras e outros elementos trazidos da França e de Belém do Pará. O conjunto protegido também inclui o Seminário São José, a Cúria e a antiga Casa de Câmara e Cadeia.

Roraima

Em Roraima, o patrimônio histórico material reconhecido pelo Iphan está diretamente relacionado ao processo de ocupação do extremo norte do território brasileiro. Entre os bens protegidos está uma antiga fortificação construída no século XVIII na região onde se encontram os rios que formam o Rio Branco.

Forte São Joaquim do Rio Branco

Construído em 1775, o Forte São Joaquim do Rio Branco está localizado no município de Bonfim, na confluência dos rios Uraricoera e Tacutu. A posição era estratégica para os portugueses, que buscavam controlar a região e evitar invasões de outros povos europeus. A construção foi comandada pelo engenheiro alemão Philipp Frederico Stürm e contou com mão de obra indígena.

O forte acabou desativado em 1900 e passou por um longo período de abandono. Ao redor da fortificação surgiram aldeamentos indígenas, entre eles o de Nossa Senhora do Carmo, associado posteriormente à formação de Boa Vista. O local também registra a presença de diferentes povos indígenas, entre eles Paraviana, Wapixana, Sapará e outros grupos que viviam na região.

As estruturas que restaram são hoje reconhecidas como patrimônio histórico e arqueológico. O Iphan classifica as ruínas como o único bem tombado em nível federal em Roraima e destaca sua importância para a história da ocupação portuguesa e do controle do principal curso fluvial da região. Em 2010, as ruínas foram anexadas ao Conjunto das Fortificações Brasileiras, dentro do processo de reconhecimento nacional desses monumentos.

Memória preservada no Norte

Os patrimônios históricos da região Norte estão ligados a diferentes momentos da formação das cidades. Teatros e mercados registram o período da borracha; fortalezas lembram as disputas e estratégias de ocupação do território; centros históricos preservam antigas áreas de mineração e comércio; e ferrovias guardam marcas das grandes obras que transformaram a Amazônia.

Em cada estado, essas construções ajudam a manter visíveis partes da história que continuam presentes na paisagem. Preservar esses patrimônios é também garantir que essas histórias permaneçam acessíveis às próximas gerações.

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