Opinião

Precisamos falar sobre o que sentimos

Durante toda nossa vida, fazemos escolhas. O que comer, o que vestir, qual curso fazer na faculdade, com quem vamos nos relacionar e por aí vai. Todos os dias, tomamos várias decisões importantes para as nossas vidas, às vezes até mesmo sem a noção do real impacto que elas podem ter. 

Há pouco mais de um mês, senti na pele o esgotamento físico e mental. Em poucos dias, vivi um misto de emoções muito confusas: exaustão, cansaço, enjoos, insônia, ansiedade. Me afligia e frustrava não conseguir mais produzir ou simplesmente viver/ser como antes.

Na minha cabeça, pairava um único questionamento: o que estava errado comigo? Num dia que eu me sentia exausta, pensei: “eu não aguento mais fazer tantas escolhas”. Naquele momento, só queria saber se levantava ou não da cama, mas, por mais simples que fosse, aquilo me doía, me esgotava.  

Depois, como uma avalanche, vieram as outras suposições: “eu tenho uma vida boa, como posso estar me sentindo assim?”, “tenho uma casa, uma família, amigos e um namorado, qual o problema?”, “eu faço o que amo, como posso não ter vontade de levantar da cama e trabalhar?”. 

Em algum momento, todos esses questionamentos saíram do campo mental e se materializaram em problemas físicos. Me sentia cansada, não conseguia dormir, meu estômago não segurava um pão e café. Levei algum tempo até juntar tudo o que eu estava sentindo e assimilar: cheguei ao burnout. Foi difícil falar em voz alta, mas eu precisava de ajuda.

Não acredito que tudo isso aconteça por uma única razão, mas acho que nós, ainda jovens, nos cobramos muito. Desde muito cedo, aprendemos que temos uma missão pré-definida: nascer, estudar, passar no vestibular, cursar a faculdade, conseguir um emprego, casar e ter filhos. Acreditamos que o sofrimento, o estresse e o trabalho excessivo são consequências necessárias para alcançarmos nossos objetivos. Normalizamos estes sentimentos e internalizamos quase como uma crença.

Por isso, pergunto: você faz o que realmente quer ou o que acha que deve fazer?

Pensamos estar fazendo o nosso melhor. Realmente, nós estamos. Mas o que nos impede de recalcular a rota ou, ao menos, desacelerar? Quando alguém me falava, eu não acreditava e nem levava a sério, mas viver a vida sem roteiros de vez em quando também é necessário. Ainda mais agora, diante de tempos tão turbulentos. Tudo está à flor da pele, amplificado. Instabilidade é o sentimento unânime. Eu sei que você aí também sente isso. Nós sentimos demais. Nesse momento tão delicado, é normal que não consigamos controlar as nossas emoções. 

A você que talvez esteja se identificando, peço que sinta tudo o que você quiser e o que achar necessário. Fique bem, como for possível, produza o que você pode, respire fundo e sobreviva. Não se cobre tanto, você tem feito o melhor que pode, todos nós temos feito. Por mais clichê que seja, está tudo bem não estar tão bem. Você não precisa ser sempre forte, se dê ao direito de desmoronar e, sobretudo, sentir. Depois disso, recomece. Recomece de novo. E de novo. Até quando for necessário.

Meu último conselho é: fique atenta(o) aos sinais do seu corpo e da sua mente, eles não falham. Ao primeiro alerta, se cuide. Tire um tempo pra você, descansar também é cuidar de si

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