A representação feminina em Game of Thrones

Por
Rebeca Almeida
Há 3 semanas atrás
Quem é Rebeca Almeida ?

Jornalista e crítica de cinema



A representação feminina em produtos audiovisuais sempre foi um tópico amplamente debatido ao longo dos anos porém com poucos efeitos práticos. Desde a era do ouro hollywoodiana até a atual popularidade de streamings quando falamos sobre como a mulher é vista em tais produções lidamos com uma série de negligências. Como uma das produções mais conhecidas de sua década, ‘Game of Thrones’ não passou impune ao reconhecimento destas falhas na representação feminina, entretanto, para entender de que forma suas personagens são construídas e se relacionam com o público é preciso considerar muitos outros aspectos influenciadores.

O primeiro ponto de análise desta representação trata-se exatamente da falta de mulheres na indústria televisiva. Longe dos holofotes de séries como Os Sopranos, Breaking Bad e Mad Men, as mulheres também possuem uma pequena participação por detrás das câmeras. No caso de Game of Thrones, especificamente, a falta de personagens femininas não é seu principal problema já que a produção apresenta uma amplitude de mulheres em diferentes posições sociais. Assim, é necessário avaliar se a polarização entre quantidade e qualidade também resiste ao seriado. 

A um primeiro olhar, GOT é uma série que trata muito bem suas personagens: vemos rainhas que assumem o trono sozinhas, uma mulher recebendo o título de cavaleira e mulheres envolvidas nas principais tramas narrativas. Porém, apesar desses e outros méritos representativos, a nudez presente na série (responsável pela popularidade do seriado em seus primeiros anos de exibição) é majoritariamente feminina e amplamente utilizada em figurantes ou mesmo coadjuvantes mulheres. 

Por se tratar de uma série épica/histórica é comum encontrar neste gênero personagens femininas associadas às figuras de donzelas e donas de casa, ou pior, vítimas constantes de violência justificada por seu gênero. Isto tudo faz parte da verossimilhança de GOT com o mundo que o escritor George R.R. Martin idealizou e os showrunners David Benioff e D. B. Weiss adaptaram para a televisão. Felizmente, as principais personagens do seriado não ficam limitadas a este tipo de representação padronizada. 

Apesar da série apoiar o desenvolvimento de suas protagonistas em motivações superficiais como nudez e violência, suas respectivas construções ao longo das temporadas mostram que estas são, de fato, personagens complexas. Neste caso tratam-se de figuras que não são definidas por somente uma característica, mas sim apresentam personalidades multifacetadas, criando uma conexão direta com seu público.

Logo após a análise da construção interna do seriado e todas suas problemáticas é preciso considerar também a presença da influência (in)direta do público espectador. É um fato notório que os seriados possuem uma relação muito dependente com seu público devido ao prolongamento narrativo por temporadas e a necessidade de prender a atenção do espectador por tantos episódios. Assim, a opinião pública passa a contar muito para as produções televisivas, o que também torna-se um fator influenciador de narrativas femininas.

Esta relação do público com a representação então alcança um patamar ambíguo no qual uma parte possui a predileção por personagens complexas e outro grupo que apesar de assistir um seriado com tantas mulheres tridimensionais prefere limitá-las em seu julgamento sobre elas. Ou seja, apesar de GOT apresentar esforços medianos para criar uma boa representação feminina, quando este aspecto perpassa seu público receptor infinitamente difuso, o feedback misto tanto celebra esta presença quanto associa personagens complexas a arquétipos comumente vistos na televisão.

Mesmo com a popularidade do movimento Time’s Up e de sua vertente sobre a melhor e maior presença feminina em produções televisivas e cinematográficas, ainda há muito a ser feito na prática para que essa representação seja realmente efetiva, ou seja, que consiga se relacionar com o público feminino. Com grandes negligências e percalços, Game of Thrones é um seriado o qual consegue apresentar um novo prospecto para essa representação na televisão. O fato de ser uma produção recente e já ter tantos elementos negativos e positivos a serem considerados reafirma a crescente relevância deste debate ser popularizado e aprofundado cada vez mais.  

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