AmazôniaNotícias

Apoie as suas irmãs, não apenas as suas irmãs cis

Vallery Maria

A luta por espaço e respeito é conquistada diariamente por Vallery Maria de Sousa Pinto.  Em um cenário repleto de violência, preconceito e exclusão, a professora apoia mulheres trans e travestis que estão em situação de vulnerabilidade nas ruas de Manaus.

Ainda na infância, com 4 anos de idade, Vallery veio a Manaus com seu pai e foi encaminhada pela primeira vez a um psicólogo. A família que sempre a ensinou a ver o mundo de todas as formas foi a mesma que não aceitou por muito tempo suas diversas características femininas. 

Filha de uma pedagoga e um delegado, Vallery cresceu livre de preconceitos por conta da posição social de seu pai. Ao iniciar a hormonização, aos 15 anos, ela viveu momentos de extrema dor, principalmente dentro de casa. Para esconder as mudanças corporais, usava ataduras. Mantinha também suas roupas e maquiagens escondidas no quarto de sua mãe, que na época apoiou a filha e tentou ao máximo protegê-la.

O dia em que Vallery foi aceita como era por sua mãe foi o mesmo em que seu pai tentou assassiná-la. Ainda jovem, ela teve de enfrentar violências físicas, verbais e psicológicas cometidas pelo homem que a criou.

Um leão por segundo

Após perder sua mãe, Vallery se viu sozinha e em uma situação de extrema pobreza. As pessoas presumem que ser trans é uma opção, mas segundo Vallery, não é bem assim. Ela teve que catar lixo para não morrer de fome, sair de seu emprego por preconceito, encarar olhares e comentários ofensivos e afins. A professora diz entender que passou por tudo isso para hoje servir de inspiração para outras mulheres na mesma situação. Hoje, ela é a mulher que tira da boca para dar a quem precisa e luta por seus direitos.

“Eu fui para o fundo do poço e esqueci quem eu era, mas hoje eu dei a volta por cima. Mato um leão por segundo, por mim e por elas”, comenta Vallery sobre tudo que passou e sobre seu atual trabalho na Associação de Travestis, Transsexuais e Transgêneros do Amazonas (ASSOTRAM). A professora criou junto com seu esposo o Projeto TransFormar com o objetivo de acolher e incentivar a formação acadêmica e profissional da comunidade trans em situação de risco, pois segundo ela, a partir do conhecimento elas poderão calar a sociedade que tanto as difama. Assim, ela usa sua história para incentivá-las a lutar pelo que é delas por direito. 

Vallery ressalta também a importância de ser tratada no feminino. A agressão cometida ao questionar seu  gênero e de diversas outras mulheres trans causa revolta e uma dor imensurável.

“Ser tratada no masculino é uma violência enorme, um assassinato à nossa identidade”. 

Maria do Rio 

Nascida e criada em Manaus, a contadora de histórias, como se intitula, Maria do Rio tem grande afeto pela cidade, por todos os seus parentes e pelos povos que habitam a Amazônia. “Eu sou um pouco de todo mundo e quero que todo mundo reconheça que tem um pouco de mim também.  Estou criando um mundo novo e seguro para re(existir) nesses corpos travestis”, ressaltou.

“Convivo com uma grande dor em meu peito, que às vezes é luta, às vezes luto, por todas as amigas que perdi no caminho e as nas que vamos perdendo para as micro agressões diárias”.

Ela acredita e usa o poder da representação de corpos travestis, seja como atriz, figura pública ou através de roteiros, para ajudar a libertar outras mulheres trans e travestis. Durante sua caminhada, criou uma relação profunda com a arte, onde participou de grupos folclóricos, macumbas e quadrilhas. “No ensino médio criei um grupo, o Grupo Folclórico Muiraquitã, com outros amigos nas aulas de Produção Folclórica com o Professor Mestre Nogueirinha, onde durante três anos desenvolvemos uma pesquisa voltada às manifestações culturais da América Latina e nos apresentávamos em espaços culturais e festivais da cidade”.

Já na universidade, Maria teve contato com movimentos sociais onde a luta pela ocupação e respeito às pessoas trans foram apresentados por meio de campanhas e manifestações. Desde 2015 ela tem tido uma forte participação na humanização de pessoas trans e negras na opinião pública e imprensa. Produziu performances nas ruas da cidade como o OCUPA MIC, performou em produtoras como a Eparrei Filmes, além de ter sido protagonista do premiado filme MARIA, que teve participação em mais de 50 festivais brasileiros e internacionais.  Para ela, a arte é uma ferramenta de cuidado, uma vontade de viver e se ver vivo. “Na guerra, a arte seria o hospital para onde vão os feridos, como vivemos em guerra, arte é luta sim, arte é vontade de viver e de ser ver vivo, de ser representado vivo e vivendo, não só sobrevivendo, mas acima de tudo vivendo.”

Quando perguntada sobre as mulheres que lhe inspiram, Maria do Rio ressalta a sua paixão por diferentes mulheres que vai de suas familiares, que são cozinheiras e curandeiras, à escritoras e cineastas.

“Cresci na cozinha com as mulheres e sempre gostei de como elas conseguiam transformar tudo em alimento. Depois vieram as saias de chita, os vestidos floridos, elas cantavam, dançavam, curavam a alma para viver e continuar. Por fim, as escritoras, comunicadoras, cineastas, traziam consigo o poder da palavra, longos pescoços, olhar  marcante, cabelos atrás dos ouvidos, brincos de argola, conhecedoras da vida, senhoras do destino, elas movem o mundo”, conta Maria.

*Essa e outras matérias da Revista Mercadizar você encontra neste link

Mais recentes

EventosMúsica

Banda Ventura, cover do Los Hermanos, se apresenta em Manaus no dia 1º de maio

Tributo integra a programação da Norte Expo Tattoo e reúne clássicos do rock alternativo nacional
EventosFilmes, séries e TV

Cineteatro Guarany exibe o longo-metragem ‘Twisted’ no programação do Cinema de Arte SEC

Sessões gratuitas apresentam thriller psicológico sobre luto, vingança e os limites da obsessão
EntretenimentoMúsica

Hallyu na Amazônia: K-pop cresce e movimenta comunidade em Manaus

Crescimento de eventos e encontros organizados por fãs ajuda a consolidar a capital amazonense como um polo emergente da cultura pop sul-coreana no Norte do Brasil
Entretenimento

Dia do Trabalhador terá programação cultural e gastronômica na Ponta Negra

Evento promovido pela prefeitura ocorre nesta sexta-feira (1º) com shows, feira gastronômica e atividades abertas ao público
EventosMúsica

Banda Ventura, cover do Los Hermanos, se apresenta em Manaus no dia 1º de maio

Tributo integra a programação da Norte Expo Tattoo e reúne clássicos do rock alternativo nacional
EventosFilmes, séries e TV

Cineteatro Guarany exibe o longo-metragem ‘Twisted’ no programação do Cinema de Arte SEC

Sessões gratuitas apresentam thriller psicológico sobre luto, vingança e os limites da obsessão
EntretenimentoMúsica

Hallyu na Amazônia: K-pop cresce e movimenta comunidade em Manaus

Crescimento de eventos e encontros organizados por fãs ajuda a consolidar a capital amazonense como um polo emergente da cultura pop sul-coreana no Norte do Brasil
Entretenimento

Dia do Trabalhador terá programação cultural e gastronômica na Ponta Negra

Evento promovido pela prefeitura ocorre nesta sexta-feira (1º) com shows, feira gastronômica e atividades abertas ao público

Relacionadas

Amazônia

Expedição Amazônia das Palavras leva leitura e arte para comunidades ribeirinhas no Amazonas

Projeto irá percorrer sete municípios entre 4 e 18 de maio com oficinas, atividades culturais e doações de livros
AmazôniaEventos

Cinema feito por indígenas ganha espaço em Manaus com mostra gratuita no Centro

Produções realizadas em comunidades da capital serão exibidas neste sábado (18), no Cine Teatro Guarany, destacando o protagonismo indígena no audiovisual
AmazôniaEventos

Kwati Club recebe 2ª Feira do Artesão de Parintins neste sábado (18/04)

Evento reúne 60 artesãos e reforça valorização da produção local na Ilha Tupinambarana
Acessar o conteúdo