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A invisibilidade também atinge a saúde lésbica

Hoje, 29 de agosto, é o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, data criada em 1996, durante o 1º Seminário Nacional de Lésbicas, com o intuito de dar visibilidade a existência dessas mulheres e suas pautas.  

Em 2017, Fernanda Soares, do Canal das Bee no YouTube, falou sobre a importância da visibilidade lésbica e a diferença de visibilidade e representatividade:

“É impossível ter representatividade sem visibilidade e quando falamos do dia da visibilidade lésbica, a gente está falando que existem muitas situações e muitos momentos onde as lésbicas simplesmente não aparecem, um exemplo disso é a história do cinema. Desde o início a gente tinha personagens que eram lésbicas, mas isso não era falado. Era uma coisa completamente subliminar e você tinha que adivinhar que talvez aquela personagem fosse sapatão”, diz Fernanda no vídeo. 

Essa invisibilidade também atinge a saúde dessas mulheres e gera falta de informação, um exemplo disso é que hoje, no Brasil, não existe um método de proteção específico para o sexo lésbico. Além disso, no país criou-se o mito de que estas mulheres não contraem nenhum tipo de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), antes nomeadas como Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs). 

Isso coloca em risco a saúde das mulheres lésbicas pois segundo uma pesquisa realizada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), citada na reportagem “Lésbicas e DSTs: manual da saúde sexual para mulheres que transam com mulheres do  site AzMina, 47,3% das entrevistadas tinham algum tipo de ISTs. A pesquisa foi feita em 2017 com 150 mulheres do estado de São Paulo. 

Ainda na reportagem, Thais Machado Dias, médica de família e comunidade do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde e do Instituto Iris, afirma que é importante ressaltar que a transmissão das infecções não diz respeito à orientação sexual, mas sim a prática sexual. A médica também explica que algumas práticas sexuais estão mais suscetíveis a determinadas infecções, porém tanto o sexo oral quanto a penetração, por exemplo, podem estar presentes no sexo heterossexual ou homossexual.

Sem nenhum tipo de método pensado e desenvolvido para o sexo entre mulheres, muitas recorrem a outras alternativas como uso de luvas cirúrgicas, calcinhas com fundo de látex e plástico filme para a proteção da vulva. Além disso, o acompanhamento ginecológico e a realização de exames também são indispensáveis para a saúde das mulheres, mas esse tipo de consulta também mostra o despreparo da área da saúde no atendimento de mulheres lésbicas como relata Gabriela Vaz, enfermeira e vice presidente do Manifesta LGBT, associação que busca trabalhar em pautas relacionadas aos direitos humanos da população LGBT.

“Por estudar na área da saúde vi o total despreparo dos meus professores que não sabiam como atender uma mulher lésbica ou bissexual. Por exemplo, quando você vai atender uma mulher com vida sexual ativa, você precisa solicitar o exame preventivo com objetivo de visualizar o colo do útero e rastrear possíveis alterações que podem sugerir câncer, mas muitas vezes no atendimento de mulheres lésbicas os profissionais acham que por não ser feito sexo com homens, as mulheres lésbicas não podem ou não precisam desse exame, e  com essa falta de informação, nós, mulheres lésbicas, estamos com uma alta porcentagem de câncer de colo de útero. E juntamente a isso outros exames e prevenção de IST’s são negligenciadas”, afirmou Gabriela. 

Em entrevista ao site AzMina, Larissa Darc, jornalista e autora do livro “Vem Cá – vamos conversar sobre a saúde sexual de lésbicas e bissexuais”, destaca que organizações que pesquisam sobre a saúde LGBTQI+ focam somente em homens gays. Para ela, é preciso pensar diversas iniciativas que trabalhem para atender as necessidades das mulheres lésbicas e bissexuais e a PL 500/2020, de autoria da deputada Isa Penna e que tramita na Assembléia Legislativa de São Paulo, pode ser um dos caminhos. 

“Uma das primeiras coisas que o projeto de lei pede é formação de profissionais de saúde, além de pedir espéculos em tamanhos menores para que os médicos consigam examinar mulheres que não tiveram penetração. O PL também pede a vacina de HPV no SUS para todas as idades, porque é uma das ISTs mais perigosas e pode causar câncer de colo de útero”, conta Larissa. Até o momento, o último andamento da PL foi no dia 17 de agosto quando deu entrada na Comissão de Constituição, Justiça e Redação. 

Para Gabriela, a invisibilidade e a lesbofobia, preconceito pela orientação sexual e movida pela machismo, tem afetado cada vez mais mulheres. A enfermeira conta que é urgente reconhecer os direitos de mulheres lésbicas e combater os preconceitos vividos por elas.

“Quando falamos do dia da visibilidade lésbica, falamos de seguir nossa luta em vários meios que ainda somos invisibilizadas como na saúde, na política, na maternidade. Quando falamos sobre pautas LGBT, falamos sobre milhões de coisas que ainda precisam ser desconstruídas. E a pauta lésbica não é diferente. Falamos sobre a necessidade de acabarmos com a heterossexualidade presumida, reconhecermos a dupla maternidade, as individualidades que necessitam serem vistas pelos profissionais de saúde no atendimento de mulheres lésbicas, os estigmas relacionados à falta de tecnologias de prevenção para o sexo entre vulvas entre outros problemas que precisamos continuar a nossa luta diária”, disse. 

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