Eduardo Klinsmann; 23/06/2020 às 10:40

#MercadizarIndica: O legado da comunidade LGBTQI+ na cultura pop e entretenimento

Conheça obras e personalidades que se tornaram um marco no Brasil e no Mundo

Apontar o início de um legado LGBTQI+ é praticamente impossível, tendo em vista que a homossexualidade é tão antiga quanto a própria sociedade. Mas é possível enxergar fatores determinantes que geram o sentimento de pertencimento e identificação à comunidade; além disso, olhar ao horizonte, mesmo que seja somente ao alcance do nosso campo de visão mais recente, é também entender e dimensionar a necessidade e a relevância das lutas que permanecem em constante crescente. 

As Revoltas de Stonewall, como ficaram conhecidas as reuniões no bairro de Greenwich Village em Nova York com início em 28 de junho de 1969 – dia ao qual se comemora o orgulho LGBTQI+, são vistas como o acontecimento mais importante para a liberação do movimento gay e a luta pelos direitos nos EUA e no Mundo. A partir desse momento, mais vozes podem ser ouvidas e isso torna-se o grande passo para o que continuamos a construir.

Foto: Reprodução/ Hypeness

E como seriam atualmente as vozes da comunidade LGBTQI+ se não houvessem artistas e produtos do entretenimento e da cultura pop que falassem de suas lutas, existência e diversidade aumentando a visibilidade e empoderamento do movimento? São diversas as possibilidades e pertencimentos causados por uma música, filme, série ou artista que gera o reconhecimento e a compreensão de quem somos. O #MercadizarIndica de hoje traz personalidades e produtos culturais  que marcaram o Brasil e o mundo. 

Nossos títulos de séries indicadas estão disponíveis na plataforma de streaming Netflix e a primeira é Pose de Ryan Murphy, ambientada no final da década de 1980. A série retrata o cenário dos bailes de Nova York, como símbolos de arte, luta e resistência. Com temas como rejeição familiar, invisibilidade social, descoberta do HIV e prostituição; a série utiliza a cultura pop como ferramenta para a sua narrativa, além de ter o maior elenco gay e transexual da história da TV norte-americana.

Algumas dessas características de bailes, podemos ver ainda fortemente no reality show RuPaul’s Drag Race comandado pela famosa ‘’Mama Ru’’, dona da icônica frase ‘’Sashay Away’’ que ainda resgata um ar dos anos 80 com os desfiles por categorias, lip syncs, hits do momento aliados as tradicionais notas dos jurados, além das histórias reais vividas pelas Drags Queens participantes de cada edição, com relatos que perpassam desde agressões homofóbicas até ao orgulho familiar pela profissão dedicada à arte Drag. O reality ainda aborda outras habilidades dessas personas como a imitação no quadro Snatch Game e a criação de personagens nos RuMusicals.

Saindo completamente desse universo, a próxima indicação tem como protagonistas as personagens de Orange Is The New Black, com a realidade das detentas da prisão de Litchfield com discussões acerca da homossexualidade e transexualidade. A série tem como grande destaque e marco a indicação ao Emmy da atriz Laverne Cox, a primeira trans a ser indicada ao Prêmio. 

E para quem não consegue maratonar uma série, há indicação para os cinéfilos também. Por que não começarmos por um clássico cinematográfico como o filme ganhador do Globo de Ouro de melhor drama e com 8 indicações ao Oscar, O Segredo de BrokeBack Moutain, que tem como trama central a relação de Ennis Del Mar (Heatrh Ledger) e Jack Twist (Jake Gyllenhaal) e por serem contratados para cuidar das ovelhas de um grande fazendeiro acabam se conhecendo. O filme retrata a descoberta da orientação homossexual em um período ainda mais conservador que o atual e essas personas, por sua vez, precisam enfrentar o maior preconceito e machismo do seu tempo para viver um novo amor: eles mesmos. 

A Garota Dinamarquesa, filme estrelado por Eddie Redmayne e Alicia Vikander, como Einar e Gerda Wegner, respectivamente, nos apresenta uma história passada no final dos anos 1920 de amor incondicional e a descoberta da transexualidade pela personagem de Eddie quando sua esposa Gerda teve uma ideia para um novo quadro e precisava que uma jovem posasse para ela. Em Einar, Gerda percebeu traços finos e delicados e logo pediu para que seu marido usasse fosse sua modelo. Ao vestir as primeiras meias-calças, Lili Elbe começava a nascer e com o passar do tempo, o que aparentemente, era um alter ego de Einar, percebemos que nada mais era do que sua descoberta como mulher. O filme aborda a presença e apoio imprescindível de Gerda na jornada de Lili. 

E quem nunca chorou ao assistir o filme Orações Para Bobby? O filme é baseado em fatos reais e retrata uma película da vida de Bobby Griffth (Ryan Kelley) que sonhava em ser escritor e cometeu suicídio por viver um embate emocional sobre quem era e os preceitos religiosos impostos por sua mãe como modo de vida a ser seguido, além da ‘’cura’’ sexual defendida pela sociedade retratada. É dessa forma que Mary (Sigourney Weaver), mãe de Bobby, abandona as ideias intolerantes e ingressa em uma associação civil em defesa dos direitos e respeito com a comunidade para dar voz a tantas outras histórias como a do seu filho.

A temática LGBTQI+ também possui grandes proporções com encenações no Teatro Musical através de obras como Priscilla Rainha do Deserto, que conta a história sobre duas Drags Queens e uma mulher transexual se aventurando pela Austrália com muito glamour e comédia; Rent, remake de ‘’La Bohème’’, apresenta os criadores gays e transgêneros do East Village de Nova York, vivendo à sombra da crise da Aids na virada do milênio; e por fim, Cabaret, musical que explorou a cultura queer, além de levantar temas como a bissexualidade e a naturalidade ao abordar assuntos como o sexo de forma casual foi um grande marco para a sociedade de 1972. 

E como não falar das personalidades icônicas do mundo musical pelo Brasil e mundo afora, seja pela identificação artística ou social? É assim que grandes nomes da música são lembrados: Por sua defesa e posicionamento político/social, por serem vozes ativas e visibilidade perante à comunidade e a luta contra a lgbtfobia, mas, sobretudo, por poderem ser quem são e pela busca constante por representatividade, respeito e direitos. 

É com essa voz ativa que personalidades da comunidade expressam através de suas letras as lutas, conquistas, preconceitos e principalmente, sobre o amor. Por meio da diversidade, se tornam vozes para quem ainda está no processo de entendimento, descoberta e autoafirmação. É assim que Cazuza, por exemplo, um dos maiores nomes do rock brasileiro, sempre tratou de peito aberto sua homossexualidade e acabou sendo ainda uma das vozes mais ouvidas na luta pela conscientização e quebra do preconceito contra a Aids.

Cássia Eller, por sua vez, imortaliza sua voz e suas letras como umas das personas mais conhecidas e autênticas no nosso cenário nacional com sua fala sempre aberta e clara sobre sua bissexualidade. Ela e sua companheira Maria Eugênia ficaram juntas até o momento da morte de Cássia.  Além dela, Pabllo Vittar, artista nacional, Nordestina e Drag Queen, é uma das vozes e personalidades mais ativas atualmente no nosso cenário musical. Com posicionamentos políticos e sua própria história de vida, Pabllo se tornou uma das maiores referências em nível internacional com toda sua representatividade dando um pouco mais de esperança para a pluralidade e diversidade na indústria musical. Nossas vozes são ouvidas e são faladas por artistas que também são como todos nós. E como não falar de Ney Matogrosso, um dos percussores da androginia enquanto estética artística no Brasil desenvolvida principalmente na Tropicália

É impossível falar da cultura pop e não mencionar personas fundamentais para a comunidade com o sentimento de reconhecimento e que são inspiração como Madonna, que sempre buscou a reflexão para uma desconstrução da imagem LGBTQI+ que era ainda mais marginalizada e buscava transpor em suas músicas e clipes algumas de suas vivências, como em ‘’In This Life’’, onde ela pergunta ao seu ouvinte se ‘’você já viu o seu melhor amigo morrer?’’, como uma referência à perda de seu melhor  amigo para a luta contra a Aids, e no mesmo álbum ‘’Why’s It So Hard’’, desafia o sistema a viver o amor sem dor. 

Lady Gaga, por sua vez, tem sua voz e imagem marcantes numa era em que os caminhos já estavam mais abertos. Mas isso é suficiente para ela? Não! Gaga é, sem dúvidas, hoje uma das vozes mais ativas e que exalam empoderamento à comunidade em suas músicas, figurinos e maquiagens. De forma engajada às causas sem – claramente – querer o famoso Pink Money, ela contribui e possibilita entendimento e descoberta de jovens acerca da sua pluralidade sexual, além de ser militante assumida pelos direitos LGBTQI+, como em um comício no West Lawn of the U.S, Gaga confrontou a administração do então Presidente Obama para que se tornasse realidade a promessa dos direitos que haviam sido ditos. Entre tantos outros fatos, como exemplo de sua voz em suas músicas, Born This Way é um marco que ecoa pelo mundo inteiro com o sentimento de ‘’caramba, obrigadx por isso, Gaga!’’, afinal, there’s nothin wrong with lovin who you are – não tem nada de errado em amar quem você é. 

Nomes ainda como Freddie Mercury, Gloria Gaynor, Whitney Houston, Cher, Elton Jhon, Ricky Martin, Britney Spears, Beyonce, Rihanna, Sam Smith, Lulu Santos, Liniker, Gloria Groove, Johnny Hooker, Ana Carolina, Ludmilla e Linn da Quebrada se tornaram a maior identificação musical pop durante os anos e o sentimento de representatividade pelo que disseminam em suas criações artísticas além de abraçar a comunidade seja por sua participação ativa em prol dela ou por de fato serem ela, nos coloca como pertencentes a uma sociedade plural, cheia de diversidade e que mesmo diante a tantos discursos de ódio, preconceito, intolerância, segregação e agressões motivadas pela lgbtfobia, continuamos a nos posicionar, lutar e termos as nossas vozes ouvidas, sejam através da cultura pop, do entretenimento, ou da força que temos enquanto seres (r)existentes que somos, afinal, nosso orgulho é diário e ainda teremos muito mais motivos para continuarmos a celebrar cada novo passo dado em frente.  

E para fechar essa série de dicas, além dos produtos culturais citados, deixamos aqui para vocês uma lista com outras indicações que não podem deixar de serem vistas:

  • Carol
  • Queer Eye
  • Sense8
  • Will & Grace
  • Call Me By Your Name
  • Hoje Eu Quero Voltar Sozinho 
  • Love, Simon
  • Tomboy
  • Girl 
  • Sex Education
  • Grace & Frankie
  • Meninos Não Choram
  • Modern Family
  • Glee
  • Moonlight

 

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