Comunicação

Mudar é preciso? A migração de profissionais da comunicação do Norte para o Sudeste

Na área da comunicação, é fácil perceber histórias de profissionais da região Norte que iniciaram a jornada de mudança para o Sul e Sudeste do país. A busca por novas oportunidades, o desejo de aprimorar a carreira e a proximidade com os polos econômicos do país são algumas das motivações que impulsionam essa mudança. 

No entanto, a transição não é isenta de desafios. O Mercadizar conversou com quatro profissionais da comunicação do Norte que deram esse passo em suas trajetórias e compartilharam seus objetivos, dificuldades e reflexões sobre morar em São Paulo.

Motivações e oportunidades

As histórias dos profissionais da comunicação migrantes do Norte para o Sudeste, ouvidas pelo Mercadizar, mostram um ponto em comum: a busca por um mercado de trabalho mais dinâmico e oportunidades de crescimento que muitas vezes são limitadas no Norte. Luiz Andrade, 34, escritor e quadrinista manauara que se mudou para São Paulo em 2022, compartilhou que sua principal motivação foi trabalhar no mercado editorial, concentrado na capital paulista.

“A mudança foi decisiva. Você passa a ser visto e lembrado e consegue criar relações com seus pares do mercado”, afirma Luiz Andrade.

Por outro lado, Mariana Vieira, 26, jornalista paraense, enfatizou a falta de oportunidades na sua área de atuação em Belém. Ela conta que, apesar de estar imersa em projetos sociais, o mercado local não oferecia as condições necessárias para seu desenvolvimento.

“Eu queria muito trabalhar com impacto social e ambiental, mas não tinha possibilidade de trabalhar com isso no meu estado, o que é um absurdo porque se a gente está na Amazônia. Deveria haver mais empresas e organizações voltadas para esse tipo de trabalho, e que sejam financeiramente sustentáveis, não é mesmo?”, questiona Mariana Vieira.

Além disso, para muitos, a busca por um mercado mais estruturado e a chance de uma remuneração mais justa são fatores decisivos. Amanda Monteiro, 27, publicitária amazonense, relatou que, embora ame sua cidade natal, as oportunidades em Manaus eram limitadas e muitas vezes carregadas de preconceitos.

“90% das oportunidades que me sustentaram durante oito anos de carreira vieram do Sudeste”, destaca Amanda Monteiro.

Desafios: Xenofobia e adaptação cultural

A migração para o Sudeste, contudo, não é isenta de desafios, especialmente no que diz respeito à adaptação cultural e à xenofobia. Mariana Vieira compartilhou que, apesar de nunca ter sofrido preconceito direto, sentiu na pele o estereótipo de “matuto” e as dificuldades de ser constantemente confundida com uma carioca apenas por seu sotaque.

“As pessoas acham que a diversidade de sotaque e de cultura do Brasil se resume ao que eles conhecem no Sudeste e, infelizmente, esse tipo de situação sempre nos coloca numa posição de ter que educar e explicar as coisas para as pessoas, porque elas vão te trazer achismos zero pensados sobre tudo.”

Para muitos, o choque cultural é um obstáculo significativo, que exige uma adaptação ao ritmo acelerado e à competitividade dos grandes centros urbanos, como relatou Valber Araújo, 28, relações públicas e cineasta manauara que também se mudou para São Paulo.

“O ritmo da cidade é extremamente acelerado, bem diferente de Manaus e, além disso, não conhecer ninguém aqui e a saudade dos amigos e familiares foram desafios constantes no início”, relembra Valber Araújo.

É possível crescer sem sair do Norte?

Apesar dos desafios, a internet tem sido uma grande aliada. Hoje, é possível para muitos profissionais da comunicação criar um espaço de destaque, mesmo morando fora dos grandes centros. Mariana Vieira, por exemplo, começou sua trajetória criando conteúdo para engajar seu público sobre temas relacionados à Amazônia e à cultura regional. 

“A minha criação de conteúdo foi um fruto dessa mudança de sair do Pará”, revelou. 

No entanto, ela ressalta que ainda existem desafios para criadores de conteúdo regionais, como a dificuldade de ser valorizado pelas marcas e agências, que muitas vezes não compreendem o valor da produção regional e esperam uma adaptação para uma linguagem sudestina.

Amanda Monteiro vê na internet uma plataforma de visibilidade para seu trabalho, mas também reconhece que a barreira geográfica ainda existe.

“Eu acredito que é possível crescer sem sair do seu estado, criando conteúdo, mas a questão das condições financeiras e da cor da pele, por exemplo, também impactam o sucesso de um criador de conteúdo”, afirma.

Mariana Vieira destaca que as redes sociais abriram portas, mas sem a mudança para São Paulo, seu trabalho nunca teria alcançado o nível de reconhecimento que tem hoje.

Mudar ou não mudar: Eis a questão

Em meio à dúvida entre sair ou permanecer, o que se percebe é que a decisão de mudar depende de um conjunto de fatores individuais, mas também do contexto do mercado local e das oportunidades disponíveis. Luiz Andrade acredita que é possível crescer dentro da região Norte, desde que haja um esforço para criar uma cadeia de apoio local.

“Sem o mínimo de organização, qualquer categoria artística vai enfrentar muito mais dificuldades.”

Para os que pensam na mudança de região, Valber Araújo dá um conselho importante:

“Nós não somos menos que ninguém do Sudeste. Não fiquem achando que somos menos entendidos da área de comunicação por sermos do Norte. Estejam preparados para o ritmo da cidade. Mas, lembrem-se, o Sudeste não precisa ser sua última parada. Pode ser apenas um degrau para outro capítulo da sua vida.”

Mariana Vieira também reflete sobre a questão da valorização no mercado de trabalho.

“Quando buscamos ser valorizados, queremos uma remuneração justa. E, dentro da comunicação, isso é difícil de encontrar no Norte. O mesmo trabalho que vale ‘X’ em São Paulo, vale ‘Y’ no Norte. Não que, ao chegar em São Paulo, as coisas sejam fáceis, mas eu tenho esperança de que, aos poucos, as coisas mudem e possamos construir um mercado de comunicação mais rico e próspero aqui na nossa região”, compartilhou ela.

Amanda Monteiro, por sua vez, falou sobre o equilíbrio entre trabalho e qualidade de vida:

“Trabalhar muito, mas viver muito também. O desafio é tentar encontrar esse equilíbrio. Aqui, eu ganho melhor, mas a vida também é mais cara. Porém, tenho mais liberdade para explorar diversas oportunidades de trabalho e lazer, e isso é o que realmente me realiza no fim do dia.”

Para alguns, construir a própria história significa escolher a mudança. Mas a construção de um mercado próspero no Norte também é possível, especialmente tendo em vista o potencial dos profissionais naturais da região, que, apesar das adversidades, fazem a diferença na produção criativa em sua terra natal.

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