Comemorado no dia 2 de setembro, o Dia do repórter fotográfico, ou Dia do fotojornalista, celebra aqueles que fazem o jornalismo através de fotos, documentando desde o cotidiano a conflitos e grandes transformações sociais. Para comemorar a data, o Mercadizar entrevista a fotojornalista do Amapá, Rudja Santos. A profissional possui experiência com jornalismo investigativo, fotografia e narrativas sensíveis sobre a realidade regional.

Foto: Arquivo pessoal
Durante sua carreira, Santos realizou a cobertura de questões ambientais, sociais e políticas, com foco em direitos humanos, biodiversidade e os impactos de grandes projetos. Além disso, teve trabalhos publicados em veículos de destaque como a CNN e a BBC. Em entrevista ao Mercadizar, Santos afirma que sua paixão pela fotografia surgiu de forma natural e sempre foi apaixonada por essa área.
Sua carreira no fotojornalismo começou com a cobertura do apagão que ocorreu no Amapá em 2020, para o veículo Amazônia Real. A fotojornalista afirma que a cobertura foi uma das mais marcantes de sua carreira, com os desafios de carregar a câmera, transferir o material, realizar a seleção das fotos e enviar.

Foto: Rudja Santos/Amazônia Real
“Eu acho que a cobertura do apagão foi uma das mais impactantes pra mim. As outras foram mais de pauta. O apagão foi um assunto que virou uma pauta fotográfica, muito mais do que em texto, porque a gente podia contar o que estava acontecendo, mas a gente só conseguia ilustrar e fazer as pessoas entenderem com foto”, relata Rudja Santos.

Foto: Rudja Santos/Amazônia Real
Outro fato que impactou a jornalista durante o apagão foi o momento em que registrou um policial armado a poucos metros de uma criança, de aproximadamente três anos de idade, durante a noite. Santos lembra que, quando tirou a foto, pensou: “por que a polícia quer atirar na gente, se já estamos sofrendo sem energia?”. A jornalista lembra que a polícia de fato estava efetuando disparos contra manifestantes e que ela chegou a cair e machucar o tornozelo. Rudja comenta que a cobertura durante o apagão foi complicada, pois ela também estava sendo afetada pela falta de energia elétrica.
A fotojornalista relata também a cobertura que fez no Suriname e na Guiana Francesa para um jornal argentino, quando entrou pela primeira vez em um garimpo ilegal e passou por um confronto enquanto fotografava casas de câmbio e venda de ouro.

Foto: Rudja Santos
“Eu e um jornalista argentino estávamos fingindo que éramos apenas turistas, mas acabou que não ‘colou’ a desculpa. Foi quando apareceu um segurança enorme pedindo para ver o que eu estava fotografando, e ainda bem que eu sabia que isso poderia acontecer, então eu estava com meu cartão com pouco material acumulado, até para ele não ver as fotos do garimpo ilegal que a gente tinha. Ele viu algumas fotos da fachada e apagou, avisou que não podia fotografar e mandou a gente ir embora e fomos, claro. Essa cobertura foi diferente por conta do risco”, completou Santos.
Ao ser questionada sobre a cobertura de pautas que envolvem direitos humanos e problemas sociais, a jornalista comenta que enfrenta dificuldades por considerar importante o fotojornalismo mostrar os fatos mas, ao mesmo tempo, se incomodar ao ver pessoas passando por determinadas situações e ter que fotografá-las. Uma estratégia que adotou é realizar as fotos à distância, para que as pessoas não se sintam acuadas. Quando a estratégia não funciona, a profissional prefere conversar sobre os tipos de fotos que serão tiradas.
“Às vezes, não dá e o jeito é conversar com a pessoa. Explico como vou tirar as fotos. Até porque o combinado não sai caro, né? Então sempre conversar é melhor. Depois, caso quem está sendo entrevistado conte ou mostre algo sensível, eu procuro conversar com a pessoa se está tudo bem mostrar aquilo. Geralmente as pessoas concordam. Acho que nunca recebi uma negativa. Às vezes, as pessoas pedem para não serem fotografadas, então eu nem começo. Mas eu gosto de conversar bastante com quem estou fotografando”, explica Santos.

Foto: Rudja Santos/Amazônia Real
Sobre o papel que imagens podem exercer na sensibilização do público, a fotógrafa explica que a fotografia ocupa um papel muito importante, já que o público é mais visual do que textual, graças ao avanço da tecnologia.
“Eu acho importantíssimo, sempre foi, mas agora se torna muito necessário para que as pessoas entendam e dimensionem os danos. Falar de alguma coisa é muito diferente de você ver. Se eu disser que um garimpo, por exemplo, causa um dano ambiental de cinco campos de futebol é ok, é grande, mas eu quero que você veja, porque visualmente é muito impactante”, ressalta Santos.
Ela ainda complementa que a fotografia ajuda a entender, a aproximar e a criar conexão com o que está sendo mostrado, principalmente em pessoas que não são da região Norte. A profissional ressalta que pautas socioambientais precisam da empatia do leitor, e é aí que entra a fotografia: para que um texto ganhe muito mais sentimento do que apenas através de texto.

Foto: Rudja Santos/Amazônia Real
Futuros fotojornalistas
Ao ser questionada sobre o que considera indispensável para alguém que deseja seguir carreira no fotojornalismo, Rudja Santos diz que é muito importante o profissional ter sensibilidade com as pessoas, pois o profissional tem que lidar com vidas e pessoas reais, não apenas histórias.
“Eu acho que o fotojornalista tem que ter uma sensibilidade com o assunto dele, com a pessoa e com o trabalho. O fotojornalista é fundamental para contar essas coisas que a gente não vê, mas isso tem que ser feito com muito respeito e muito cuidado”, afirma Santos.
A jornalista ressalta a necessidade de estudar e se profissionalizar. Rudja Santos afirma que esse é um dos principais pontos que sente falta quando nota que algum fotojornalista não apresenta a formação. É importante o profissional entender o porquê do fotojornalismo ser feito de forma mais cuidadosa.
“O que eu falaria para alguém que quer seguir essa carreira é buscar se formar, se especializar, buscar ser um profissional registrado, porque não é uma profissão fácil. A gente corre riscos, e aí quanto mais respaldado a gente estiver, melhor. Em resumo: muito estudo, dedicação, respeito, sensibilidade e não esquecer que o principal ponto do seu trabalho é um ser humano e é necessário ter consciência da responsabilidade que é retratar a história de uma pessoa ou comunidade”, finaliza Rudja Santos.

Foto: Rudja Santos/Amazônia Real