Sociedade

A questão LGBTQIAP+ para as populações indígenas

Quando o assunto é diversidade, é comum que logo sejamos levados a pensar nas pautas da comunidade LGBTQIAP+, que é o símbolo da luta coletiva pelo direito de amar e existir do jeito que cada pessoa realmente é. No entanto, para garantir que a premissa saia do campo das ideias e se faça presente como prática, é imprescindível a criação de diálogos inclusivos. 

Atualmente, no Brasil, existem 2,9 milhões de pessoas com 18 anos ou mais que se declaram lésbicas, gays ou bissexuais. Esses dados foram coletados em 2019 e publicados em maio deste ano pela Pesquisa Nacional de Saúde (PNS): Orientação Sexual Autoidentificada da População Adulta, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nesse levantamento, não há recortes referente à raça/etnia ou a identidades de gênero, o que revela a falta de um olhar interseccional de instituições e órgãos públicos sobre pautas importantes de gênero e sexualidade, que precisam ser discutidas de maneira específica, levando em consideração cada público.

A interseccionalidade é um conceito que se transforma em ferramenta analítica importante para pensarmos as relações sociais de raça, sexualidade, classe e outros aspectos humanos. Através dela, é possível entender como sistemas de opressão têm impactos diferentes sobre pessoas diferentes. Um exemplo são as lutas indígenas por territórios que transcendem a questão geográfica e atingem o campo das ideias, como a necessidade de mais discussões de gênero e sexualidade. 

A ausência de indígenas nos espaços de poder, somada à falta de aspectos interseccionais nos métodos de pesquisas, discussões e apontamentos, contribui para a invisibilidade de suas demandas dentro da comunidade LGBTQIAP+ e em outras lutas sociais. Além disso, essa sub-representação contribui ainda mais para a desinformação e o reforço de estigmas, como a ideia de que não existem pessoas LGBTQIAP+ de origem indígena. Outro ponto que se faz necessário destacar é que, por mais que essas pessoas não estejam presentes e visíveis nas mídias e nas rodas de conversas, o mesmo preconceito que fere pessoas não indígenas da comunidade também atinge as etnias indígenas brasileiras. 

Em entrevista ao Mercadizar, Caio Prófiro, estudante de Relações Públicas e indígena Mura, fala sobre o movimento de jovens indígenas nas discussões de gênero e sexualidade para reivindicar suas narrativas dentro da comunidade LGBTAQIAP+ e na sociedade:

“Acredito que boa parte dos indígenas brasileiros, principalmente os mais jovens, estejam cada vez mais ‘antenados’ no debate de gênero e sexualidade. No Brasil, a comunidade LGBTQIAP+ ainda caminha a passos curtos no que se refere à discussão de raça/etnia. Pessoas não indígenas precisam entender que o assunto é delicado e atravessa muitas questões político-sociais dos aldeamentos e das comunidades indígenas.

Já em relação a como as comunidades indígenas compreendem a questão LGBTQIAP+ e a presença indígena de povos originários do Norte do país nas rodas de conversa, Thaís Kokama, artista indígena, afirma: “Nós, LGBTQIAP+ indígenas, não estamos nas rodas de conversa, especialmente quando somos do Norte do país. Nossa articulação sobre essa pauta dentro das nossas comunidades varia muito de povo para povo. Eu não posso falar por todos, mas vou falar sobre a aldeia onde morava. Eu sou bisexual e o meu tuchaua me perguntou sobre minha orientação e me entendeu, mas sempre falou sobre respeito. No entanto, em outras aldeias isso pode ser diferente porque é muito diverso, são muito ritos diferentes.”

Vale mencionar que a primeira vítima de homofobia registrada no país foi Tibira, um indígena Tupinambá assassinado em 1614 sob o pretexto de “purificar a terra do abominável pecado da sodomia”, em um episódio de espetacularização da morte de um “pecador”. Desde lá, pouca coisa parece ter avançado, e povos originários precisam ter espaço para pautar demandas que reforcem suas humanidades e que vão além das questões de meio ambiente e demarcação. Além disso, é preciso ter em mente que não existem diálogos inclusivos sem considerar marcadores sociais como raça/etnia, sexualidade, localização geográfica e outros. Tais marcadores são usados por sistemas de opressão para discriminar e excluir indivíduos ou grupos, e enquanto as pautas de discussões da comunidade LGBTQIAP+ não trouxerem essa compreensão, a invisibilidade dessas pessoas continuará sendo perpetuada. 

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