Isabella Botelho; 26/06/2020 às 15:30

Representatividade LGBTQI+ na mídia 

Marcas e mídia podem e devem ocupar seu papel de transformar a sociedade

Há cerca de 45 anos, o primeiro personagem gay surgia na televisão brasileira, na novela O Rebu, da TV Globo. A trama girava em torno de um misterioso assassinato. O pesquisador Luiz Eduardo Peret destaca que “até o fim da primeira metade da novela, o público não sabia quem havia morrido, nem se era homem ou mulher. Só no último capítulo se revelava que o rico Conrad Mahler matara a jovem Sílvia por ciúmes dela com seu ‘protegido’ Cauê. A homossexualidade estreou na telenovela através do crime ‘passional’ e da dependência financeira de um jovem por um homem mais velho”.

Nesse mesmo período, tivemos a primeira “onda” de movimentos LGBTs no Brasil, formados majoritariamente por gays e travestis, como resposta ao silenciamento imposto pela “moral e bons costumes” da época.

O primeiro beijo gay numa novela das 21h aconteceu em 2014, entre Matheus Solano e Thiago Fragoso, que interpretavam o casal Félix e Niko, respectivamente, na novela Amor à Vida. Quase dez anos antes da cena, a Globo gravou o beijo dos atores Bruno Gagliasso e Erom Cordeiro, mas que acabou não indo ao ar em América (2005). Já em Torre de Babel (1998), a emissora matou as personagens de Christiane Torloni e Silvia Pfeifer pela má aceitação do público. 

Já o SBT vetou o beijo entre os personagens Lui Mendes e Chico na trama Amor e Revolução (2011), mas mostrou o de Marcela e Marina, vividas, respectivamente, por Luciana Vendramini e Giselle Tigre na mesma novela.

Precisamos parar para analisar também como os personagens LGBT foram e são representados nas novelas até hoje. Em O Rebu, por exemplo, foi apresentado um estereótipo de um jovem homem homossexual que dependia financeiramente de um homem casado e mais velho. Além de como são representados, outra questão vem à tona: entre eles, quantos são interpretados por pessoas LGBTs? Quantas travestis estão no elenco da Globo, do SBT, da Band ou da Record? Quantos homens e mulheres trans ocupam espaços de poder na mídia? Quantas lésbicas participaram da produção do roteiro das telenovelas em que são representadas? Provavelmente, a resposta não ficará muito longe do zero. Nos últimos anos, muita coisa mudou, outras nem tanto. É fato que vemos cada vez mais representatividade na mídia brasileira, seja nas telenovelas ou em reportagens pedagógicas da mídia impressa e online.

Na publicidade, por exemplo, já vemos mais cabelos ondulados, cacheados e crespos. Mais mulheres e homens negros. Mais diversidade sexual e identitária. Esse é o caminho que a publicidade brasileira vem trilhando nos últimos anos – ainda a passos lentos em comparação às discussões que acontecem na sociedade, é verdade. Os conteúdos apresentados em diferentes mídias, como televisão e redes sociais, mostram menos estereótipos e mais situações empoderadoras  – é um fato. Apesar dos avanços, as transformações ainda não acontecem na velocidade desejada.

Apesar de muitas marcas já enxergarem além, outras preferem não se manifestar em favor da diversidade. Vale lembrar a importância e a influência que as marcas têm na sociedade: elas têm o poder de ocupar o espaço e modificar a produção cultural que vemos na mídia, através da educação do público geral e presença de todos os tipos de pessoas em suas campanhas. 

“As grandes marcas ainda não entenderam a diversidade como fonte de renda. São poucas as que não se comportam de forma oportunista. Não adianta fazer publicidade com casais gays e ter o dono envolvido na bancada política que diz proteger crianças e não considera as que nasceram gays. As grandes marcas e seus líderes têm relação direta com o grau de LGBTfobia que a sociedade experimenta hoje”, afirma o ator Hugo Bonemer em entrevista exclusiva ao Mercadizar. 

Democratizar a mídia não implica somente em ampliar o acesso e buscar a pluralidade nas representações. Em outras palavras, não se trata apenas de democratizar o produto. Vai muito além. Mais do que representatividade em uma peça publicitária, é necessário que exista consistência por trás do discurso e que essa empresa realmente se empenhe e se comprometa com a causa. Precisa ser natural, verdadeiro e, o mais importante, duradouro. Ter diversidade nas empresas (e também nas agências de publicidade) ajuda a ter no planejamento o olhar verdadeiro de quem se quer representar. Ninguém melhor que o participante da minoria para dizer como ele deve ser representado.

Bonemer, que assumiu publicamente seu relacionamento com o também ator Conrado Helt em entrevista em 2018, compartilha diariamente em suas redes sociais conteúdo em favor ao respeito à diversidade e a causa LGBT. Em entrevista à Quem, ele falou que tinha receio de uma possível repercussão negativa do público e das empresas: “A repercussão foi totalmente contra o que eu imaginava. O que eu ouvia de outras pessoas que tinham dividido isso com o público era horrível. A apresentadora Ellen Degeneres, por exemplo, ficou oito anos sem trabalhar após dizer que era lésbica. Muita gente dizia que eu nunca ia trabalhar na TV novamente”

Cerca de um ano após a entrevista em que falou abertamente sobre sua orientação sexual pela primeira vez, o ator foi convidado para o quadro Show dos Famosos, do programa Domingão do Faustão, da Rede Globo. Para ele, conquistar aquele espaço em um dos programas de maior audiência da televisão brasileira tinha um significado especial. Era a representatividade, enfim, batendo à porta.

Em entrevista ao Mercadizar, Bonemer também contou que, apesar de não ter perdido trabalhos, não teve e nem tem uma vida tranquila enquanto artista LGBT. “Como toda pessoa LGBT, eu experimento os mesmos preconceitos. São meus privilégios que me tiram de estatísticas, me blindam de ataques, me protegem de abusos e me possibilitam usar meu tempo com uma militância contundente, mas menos agressiva. Quando alguém me elogia por manter uma comunicação não agressiva, eu automaticamente me lembro que eu só posso fazer isso porque não tem ninguém me expulsando de um banheiro, por exemplo, abusando psicologicamente de mim em casa por dependência financeira ou fazendo sessão de descarrego para tirar o diabo gay do corpo. Mas ainda que eu goze desses privilégios, eu adoraria dizer que minha vida flui de maneira tranquila como artista LGBT”. 

O ator, que tem em seu currículo importantes musicais como Hair, novelas como Malhação e A Lei do Amor e seriados, entre eles O Negócio, continuou trabalhando após assumir sua orientação sexual. Depois, ele ficou em cartaz com Ayrton Senna, o Musical e ainda voltou aos palcos com Yank!. Esses trabalhos mainstream, segundo ele, foram fundamentais para ele poder fazer trabalhos com temática LGBT.

“Eu só consigo fazer trabalhos com temática LGBT porque guardei dinheiro dos trabalhos mainstream em teatro musical onde interpretei homens héteros. Nunca tive lucro com meus trabalhos artísticos com temática LGBT, porque eles geralmente custam mais do que o retorno prevê. A única forma de se pagarem é através de verba direta de marketing de empresas. Eu só recebo negativas das marcas para meus projetos de diversidade e inclusão porque elas nunca estão preparadas pra falar desse assunto”, conta.

Para finalizar, Hugo deixa o conselho: “Entendam a força que a sua voz tem. Exijam essa representatividade que traz calor pro coração de vocês. Exijam artistas abertamente LGBTs na dramaturgia, exijam que seja legislado em favor de LGBTs, exijam que um artista que ganhe dinheiro com a população LGBT se posicione politicamente sim. E olhem para pessoas trans e pretas, mas olhem mesmo! Eles não estão se sentindo parte desta comunidade”.

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