Isabella Botelho; 30/03/2020 às 12:00

Entre o tabu do prazer e a saúde sexual: uma conversa necessária 

Num contexto alimentado por tabus e desinformação, a saúde sexual e o prazer se tornam assuntos problemáticos

Para entender porque a sexualidade feminina é tratada da forma como a conhecemos, precisamos olhar um pouco para trás até chegarmos ao que seria o “início” da humanidade. Tanto na Bíblia, com a figura de Eva, quanto na Mitologia, com Afrodite, o corpo da mulher e sua sexualidade, respectivamente, teriam sido criados a partir do pedaço do corpo de um homem: a primeira veio da costela de um; a segunda, do pênis castrado de um deus. A ideia de que o corpo feminino era uma extensão do masculino se perpetuou por muitos anos em várias áreas do saber, inclusive na ciência: até o século XVII, os ovários eram conhecidos como “testículos femininos”.

Desde a Grécia Antiga até o final do século XIX, por exemplo, acreditava-se que a histeria, um tipo de neurose, era uma “doença” exclusiva das mulheres. A própria origem da palavra demonstra uma falta de conhecimento, por séculos, do corpo da mulher: histeria vem do grego “hystéra”, que significa útero.  

O psicólogo francês Pierre Janet e, posteriormente, Sigmund Freud, foram os primeiros profissionais a associar a histeria a causas psicológicas e não físicas, provando que a neurose pode acometer pessoas independente de seu sexo. Mas, até o século XX, a histeria das mulheres era tratada com cirurgias – incluindo a remoção do útero – e remédios. 

Do tratamento equivocado da histeria até hoje, muitos outros mitos sobre a sexualidade e o corpo feminino continuam sendo disseminados. Neste contexto de tabus e desinformação, o prazer feminino se torna um assunto problemático que, com frequência, não ultrapassa as barreiras do consultório médico. 

A verdade é que muito de tudo que conhecemos hoje sobre sexo, prazer e sexualidade foram definidos a partir da visão de homens. Numa sociedade machista e patriarcal como a que vivemos, seria estranho não enxergamos tudo sob a ótica masculina. No entanto, a sexualidade feminina se refere estritamente a uma mulher, logo, apenas uma mulher pode explicá-la. 

A desinformação está na base de sentimentos e confusões sobre a sexualidade e o funcionamento do próprio corpo. E a única forma de entender seu corpo é conhecê-lo, como explica a ginecologista e sexóloga Thais Silotti. Eu acredito que, hoje, o que as mulheres precisam saber sobre sua sexualidade é como seus corpos funcionam a favor do prazer. Esse conhecimento passa prioritariamente pelo entendimento do seu corpo. Como eu sempre oriento: pegue um espelho, se olhe, se toque, se entenda e se conheça. Só assim você vai saber como seu corpo reage e como ele consegue alcançar o prazer”

O aprendizado é muito mais importante do que as diferenças físicas entre homens e mulheres. Enquanto os homens aprendem desde cedo que sexo é algo “recompensador”, para as mulheres, sujeitas a abusos e violências, é algo ambivalente. Além disso, as pessoas acham normal os meninos se tocarem, mas as meninas são censuradas se descobrem sua sexualidade dessa maneira. 

A saúde é para todas 

Falar de sexualidade feminina sem falar em acompanhamento médico é impossível. No caso de mulheres lésbicas, bissexuais e transexuais, surge mais um desafio: o preconceito. Estudos comprovam que essas mulheres vão menos ao ginecologista. Diversos motivos são apontados para essa triste realidade: por medo de sofrer comentários preconceituosos e por conta de  uma cultura que segrega. 

“Hoje, nossa grande dificuldade em relação a orientação para prevenção de casais homossexuais é justamente pelo fato de ser um público que foi muito hostilizado e que ainda sofre muito preconceito. Então, é um público que ainda não tem muito acesso a profissionais da saúde com liberdade e autenticidade. Quando esse público tem essa acessibilidade, as orientações são as mesmas com apenas alguns adendos. Para casal homossexual feminino, por exemplo, nós sempre frisamos muito a importância da prevenção das IST’s e a prevenção da área íntima durante o sexo oral”, afirma Thais.  

Um estudo do Centro de Referência e Treinamento DST/Aids, de 2012, da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, mostrou que apenas 2% das lésbicas se previnem contra Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST’s). Essa realidade passa pela desinformação, mas também pela falta de métodos de proteção desenvolvidos especificamente para elas. 

Além das mulheres lésbicas e bissexuais, mulheres transexuais e travestis também enfrentam dificuldades quando o assunto é saúde sexual. Segregadas pela sociedade, elas não têm acesso à lições básicas da saúde sexual e nem à métodos de proteção, como explica Vallery Maria, que faz parte da Associação de Travestis, Transexuais e Transgêneros do Amazonas (Assotram): “Nunca houve a preocupação da criação de políticas públicas para educação sexual voltada para as mulheres trans e travestis. O que é supostamente ensinado está voltado para os homens e mulheres cisgêneros. Para ser mais clara, tudo que nós, mulheres trans e travestis, aprendemos é na vivência”. 

A importância da educação sexual

Alimentado por ideais desatualizadas de papéis de gênero e uma sensação de que a sexualidade feminina é, de alguma forma, vergonhosa, muitos mitos sobre mulheres e sexo simplesmente não morreram. Mas o que realmente estamos ensinando às nossas meninas sobre sexualidade? 

Conhecimento é poder. Podemos – e devemos – incentivar uma relação mais saudável com o sexo, incentivando um diálogo mais aberto, ensinando as meninas, desde cedo, a se sentirem mais confortáveis com sua sexualidade e, o mais importante, enfatizando que seus corpos são exclusivamente delas. 

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