Eduardo Klinsmann e Isabella Botelho; 17/06/2020 às 18:00

Descarte consciente: projetos manauaras incentivam a coleta seletiva e a reciclagem 

Projetos e iniciativa privada estimulam consciência e educação com o descarte do lixo e sua reutilização

A geração de resíduos vem crescendo em grande escala, principalmente por conta da expansão de empresas e dos hábitos de consumo. As sobras que não são destinadas corretamente afetam diretamente o meio ambiente e a saúde humana. A coleta seletiva é uma das principais ações que vem colaborando para reverter esses danos. Além de evitar a disseminação de doenças e preservar a natureza, a prática é o primeiro e mais importante passo para fazer com que todos os tipos de resíduos se encaminhem para os seus devidos lugares. Quando separadas corretamente, estas sobras podem ser recicladas, transformando-se em novos produtos e ajudando a mover a economia de forma sustentável. 

Ao longo da história, o lixo e suas formas de descarte desde o início das primeiras civilizações sempre tiveram certo destaque. Contudo, com a Revolução Industrial, outros patamares com o lixo foram atingidos e o seu descarte se tornou algo mais preocupante: o que era em sua maioria orgânico, passou a ter características eletrônicas, radioativas, industriais, químicas e entre outras formas.

Segundo relatório publicado no ano de 2017 pela agência ambiental da Organização das Nações Unidas (ONU), a poluição da natureza é responsável anualmente por quase um quarto ou 12,6 milhões de todas as mortes de seres humanos. O relatório alerta ainda para os riscos enfrentados pelos mais vulneráveis. Crianças podem ter seu desenvolvimento físico e mental atrofiado devido a exposição à poluição em seus primeiros mil dias de vida.

O impacto causado no meio ambiente e em sua degradação são expressivos também nos oceanos, no qual já possuem cerca de 500 “zonas mortas” e a sua quantidade de oxigênio é tão pequena que torna praticamente impossível a presença de vida marinha. Além disso, mais de 80% do esgoto mundial é despejado no meio ambiente sem tratamento, poluindo os solos usados na agropecuária e os lagos e rios que são fonte de água para aproximadamente 300 milhões de pessoas, conta o relatório.

De acordo com a Política Nacional de Resíduos Sólidos, as prefeituras das cidades devem se responsabilizar pela separação dos resíduos feita nos domicílios. Hoje, no entanto, Manaus não possui um amplo sistema de coleta seletiva proporcionado pelo poder público da cidade. Apesar de o serviço ser oferecido pela Prefeitura desde 2005, ele não abrange nem 30% dos bairros da cidade. Segundo dados da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (SEMULSP), o serviço mantido alcança apenas 18% da população e 13 bairros (Centro, Chapada, Dom Pedro, Ponta Negra, Nova Esperança, São Jorge, Planalto, Coroado, Parque 10, Nossa Senhora das Graças, Adrianópolis, Flores e Japiim) dos 63 bairros de Manaus. Ao todo, são apenas 13 rotas fixas de coleta “porta a porta” que atendem ao restrito número de 120 localidades, entre conjuntos, comunidades, condomínios residenciais, órgãos públicos e escolas.

Além do sistema “porta a porta”, a população pode entregar os resíduos separados nos Pontos de Entrega Voluntária (PEVs), locais que a Prefeitura de Manaus implantou para receber os resíduos que o cidadão separa e quer entregar para que sejam reciclados. Há também o serviço de coleta agendada de grandes objetos. Lançado em julho de 2019 em parceria com as duas concessionárias dos serviços de coleta de lixo que operam na cidade, o agendamento é gratuito e pode ser feito via aplicativo de mensagens para recolher objetos como sofás, camas e geladeiras.

Procurada pelo Mercadizar, a SEMULSP não respondeu qual a previsão de ampliar o sistema “porta a porta” para mais bairros de Manaus. No site da secretaria, a SEMULSP afirma que tem entre as suas metas de limpeza pública “aumentar a cobertura de coleta, conscientização e mutirões de limpeza nas 12 comunidades ribeirinhas atendidas pela Prefeitura de Manaus, que já é feito de 3 em 3 meses” nos próximos anos. 

É justamente pensando em minimizar os impactos ambientais sofridos pela falta de coleta seletiva por décadas em nossa região que projetos encabeçados de forma independente ganham cada vez mais expressividade. De modo sustentável e ecológico, eles contribuem para a preservação do meio ambiente.

O Projeto Descarte Correto, por exemplo, é uma empresa social especializada na gestão de resíduos tecnológicos e com um processo inovador que vem ao encontro às alternativas avançadas do segundo e terceiro setor para a coleta, reciclagem e destinação correta do lixo tecnológico. Através de parcerias, criam uma rede de pontos de coleta, com soluções para a destinação socioambiental do lixo, mobilizando pessoas, comunidades, empresas, governos, entidades e negócios sociais, por meio de ações, eventos, fóruns e seminários.

O projeto tem como ponto central de coleta o galpão da empresa e ainda outros 15 pontos distribuídos pela cidade, de onde partem para duas destinações bem inovadoras. Em entrevista ao Mercadizar, Alessandro Dinelli, um dos idealizadores do Descarte Correto, informou como se dá o processo de trabalho e o destino de produtos que não podem mais ser reaproveitados. 

“Depois da triagem e pesagem, parte do resíduo que não pode ser mais reaproveitado vai para um processo de manufatura reversa e se transforma novamente em matéria-prima, como plástico e metais, para as indústrias. Por sermos um negócio de impacto, ao invés de desmontar tudo, transformamos a outra parte dos resíduos em produtos para inclusão digital em comunidades carentes”, afirma.

Dinelli ainda nos contou com detalhes como o projeto Interativo, um dos trabalhos desenvolvidos nas comunidades, funciona: 

“Com ele disponibilizamos 22 computadores pré-fabricados, um pacote de mais de 60 cursos on-line, metodologia, manutenção e capacitação dos gestores em vendas, administração de negócios e técnica. Em contrapartida, a comunidade atendida cede o espaço e paga uma taxa de licenciamento da franquia, também muito acessível. Hoje já temos mais de 13 microfranquias atuando com esse modelo e mais de 1000 pessoas impactadas pelos cursos de inclusão digital oferecidos à comunidade”.

O desenvolvimento da educação e conscientização em outros setores também é de suma importância. Dessa forma, em entrevista ao Mercadizar, Tierry Saldanha, participante do Reciclagem do Bem, Projeto de Extensão da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), contou que o mesmo foi criado em 2017, pela professora do Departamento de Contabilidade, da Faculdade de Estudos Sociais (FES), Silvia Elaine Moreira, com o objetivo de promover a coleta seletiva de materiais recicláveis específicos.

“Nosso objetivo é promover a coleta seletiva de materiais recicláveis específicos, como esponjas de uso doméstico e suas respectivas embalagens, instrumentos de escrita usados e suas embalagens, entre outros. Temos um papel importante socioambiental e educativo que busca reduzir o descarte de material sólido no meio ambiente. O recolhimento está relacionado a campanhas das empresas de reciclagem parceiras que recolhem o material”, explica. 

Com um importante papel socioambiental e educativo que busca reduzir o descarte de material sólido no meio ambiente, o recolhimento está relacionado a campanhas das empresas de reciclagem parceiras que recolhem o material. Qualquer pessoa que queira contribuir com os descartes, pode direcionar-se até a sede do projeto na sala sustentabilidade de número 26 do Centro de Convivência da Ufam, onde é o seu principal ecoponto de recebimento de materiais, mas no momento encontra-se inativo devido ao isolamento social. Em parceria com a Prefeitura do Campus, por meio do programa UFAM Recicla e a Comissão de Resíduos Sólidos, estão em trâmite para a abertura de novos pontos de coleta na Universidade.

As razões e motivações para o cuidado e busca por outras possibilidades com o meio ambiente são diversas, inclusive, pessoais. Com a necessidade de um consumo consciente na capital amazonense através da economia criativa, o Coisas de Vó surgiu com o nascimento da primeira neta da idealizadora do Coisas, Lucy Santos, e a sua preferência por alternativas mais saudáveis na criação de produtos, como a fralda ecológica que ainda era um item de difícil acesso às mães. Com o objetivo de cuidar do futuro da sua neta e da nova geração, busca trazer mais sustentabilidade com suas criações.

Para Lucy, o consumo consciente tem atingido os consumidores cada vez mais, mas ainda enfrenta certa resistência. O público jovem, segundo ela, se apresenta muito mais adepto a mudança dos hábitos para redução do descarte de lixo com o uso das escovas de dente biodegradáveis e dos canudos reutilizáveis, por exemplo. Em meio à atual pandemia, o Coisas de Vó desenvolveu máscaras de pano sem costura como alternativa para substituição das máscaras descartáveis aliando o seu objetivo sustentável à uma contínua manutenção do seu negócio em meio ao período de distanciamento social.

A reciclagem também está fortemente relacionada à uma visão mais artística por meio de produtos desenvolvidos por artesãos e artistas plásticos. A exemplo disto, Rita Prossi, designer de joias, desenvolve seu trabalho a partir da natureza amazônica.

“A nossa produção faz parte de uma vasta cadeia; O índio que tece a palha ou colhe a semente, o artesão que limpa, lixa e corta a semente, o designer que cria o modelo, o ourives que faz a produção, os “pedristas” que fornecem as pedras, os ‘cravadores’ que cravam as mesmas na montagem, as índias do alto rio negro fazem as embalagens à mão e depois a distribuição é feita para as lojas. A nossa empresa trabalha beneficiando os projetos de oficinas para organização de trabalhos indígenas e artesanal, para que possa ser transformado em um sistema sustentável e promissor para a região’’, afirma em seu site.

O artista Denizal Melo, por sua vez, nos contou que, através do reaproveitamento de materiais eletrônicos que precisavam ser descartados em seu antigo emprego, desenvolveu algumas peças sem pretensão alguma e as mesmas originaram todo o trabalho que desempenha até hoje. Atualmente busca utilizar a maior quantidade e diversidade de lixo eletrônico. Dentre suas obras, podemos ressaltar os robôs criados em tamanho humano.

“Nem todo material eletrônico pode ser colocado para fazer artes e esculturas. Quando a gente faz coleta do material, trazemos para casa, fazemos a triagem, a manufatura reversa e vai separando por peça e por placa. Algumas coisas a gente utiliza e outros materiais a gente leva para empresas recicladoras”, diz Denizal.

Durante seus 8 anos de trabalho realizado, tem em seu histórico 2 mil peças criadas e 30 toneladas de lixo coletadas. Hoje está estruturando o Projeto Sucatrônica – reaproveitamento criativo, o qual aborda a educação ambiental, a importância da incineração dos resíduos, o conceito de sustentabilidade e a aplicação das técnicas desenvolvidas com crianças da rede pública de ensino municipal do Amazonas, além de expandir a outras regiões do país como no estado de Pernambuco.

Em meio à pandemia do novo coronavírus, o projeto Descarte Correto informou ao Portal Mercadizar que pessoas físicas que queiram fazer o descarte podem procurar a sede do projeto, localizada na Rua Carbonita, 01, Parque Shangrilá, no Bairro Parque 10 de Novembro, sempre utilizando uma máscara para a proteção de todos. No caso de pessoas jurídicas, o ideal é agendar antes para que eles possam produzir o certificado de destinação correta. Já o projeto Reciclagem do Bem, pede para todos aqueles que participavam do projeto aguardem o retorno das atividades presenciais. 

“Esse é o momento para compartilhar ideias sustentáveis com seus ciclos sociais e aprender todos os dias sobre conceitos verdes. Sugerimos também que guardem por mais um tempinho seus resíduos recicláveis até esse período de não-atividades  passar e, se puder, fique em casa. Nosso projeto presencialmente só retorna conforme as atividades da Universidade. Até lá, nossas atuações estão mais limitadas”, disse Tierry Saldanha, integrante do Reciclagem do Bem.  

Além dos projetos, a SEMULSP também suspendeu a coleta seletiva “porta a porta” e nos pontos de entrega por conta da pandemia. “Fique de olho em nossas redes sociais que avisaremos quando os serviços se normalizarem”, diz o site da secretaria. Você pode acompanhar a  secretaria no perfil @semulsp_manaus.

A reciclagem, seja ela artesanal, tecnológica, têxtil, orgânica ou de qualquer outra natureza, possui grande responsabilidade social e ambiental, otimiza a limpeza pública urbana e ainda gera empregos e novas fontes de renda. Desenvolve a consciência ecológica com a utilização racional dos recursos naturais e o principal ao meio ambiente: reduz a poluição do solo, água e ar. 

A necessidade e atenção para o meio ambiente, é também de suma importância das iniciativas públicas municipais, estaduais e federal. Em consonância com atitudes privadas, é preciso que gestores públicos também elaborem outros projetos que visem a preservação do meio ambiente como um modo de vida consciente, educacional e principalmente, preventivo a doenças para maior expressão e contribuintes a esse progresso ambiental e social.

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