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Afetividade, mulheres negras e o cancelamento de Karol Conká

Nos últimos meses, um dos assuntos mais falados na internet foi o Big Brother Brasil, que ficou ao ar do dia 25 de janeiro, até o dia 4 de maio. Desde a edição de 2020, o programa tem sido palco de figuras públicas, ações publicitárias e muitas discussões sociais que dizem respeito às questões mais amplas do país. Dessa forma, ao longo de 100 dias de confinamento, o maior sucesso do departamento de entretenimento da TV Globo, apresentou para os telespectadores questões sobre transfobia, bifobia, xenofobia, masculinidade tóxica, racismo e cultura do cancelamento.

Com isso, a edição de 2021 rendeu muitas discussões   e como tudo hoje em dia, elas foram ainda mais aquecidas no ambiente das redes sociais. No entanto, destacamos aquela que, sem dúvidas, ganhou a maior atenção do público em geral: a situação da participante Karol Conká, eliminada do programa com uma porcentagem histórica de rejeição. 

Listamos algumas das principais polêmicas na trajetória da participante no reality:

  1. Jogo psicológico com Lucas
  2. Acusações de xenofobia 
  3. Perseguição com Bill e Carla

Vale lembrar que a curitibana no reality participava do “grupão”, em que sua maioria era formado por pessoas negras e todos também foram eliminados com porcentagens altas do programa. No entanto, o cancelamento de Karol foi o único a chegar em níveis catastróficos, com perdas de contratos profissionais e mais de 300 mil seguidores em uma rede social até mesmo auxílio por parte da emissora para gerir os possíveis danos e impactos na carreira da rapper.

Por que o foco parece estar somente em Karol?

Em um país onde a marca de mortos por Coronavírus já ultrapassou a faixa de 400 mil pessoas e ainda faltam vacinas para a maior parte da população, o linchamento virtual, a necessidade de punição, a cobrança pelas ações, o cancelamento, o ódio e indignação social, parecem ter a necessidade de ser direcionados para uma mulher preta que participou de um programa de entretenimento, onde apresentou sua humana complexidade, marcas e os danos psicológicos que o racismo pode causar. E sim, pasmem, tudo que Karol fez durante sua estada no BBB, foi ser humana e errar tão feio quanto vários homens e mulheres brancas que já passaram pelo programa, e alguns casos, chegaram até a ganhá-lo.

Mas não, isso não se trata de uma defesa a favor de Karoline, e nem de tirar a responsabilidade de suas ações, a raiz do problema que queremos tratar é: por que as ações erradas de uma mulher negra parecem revoltar mais? Quais são os critérios que não são percebidos, mas são utilizados para condená-la e em outros casos absolver? Opressão se põe em balança? O que dói mais?

Fato é que Karol errou, como qualquer outra pessoa em qualquer outra edição. Como no caso de Marcos do BBB 17 e sua situação com Emilly; Paula no BBB18 e suas falas em relação às religiões africanas; no BBB 20, Rafa Kaliman e suas ideias sobre África, Marcela, Ivy em relação a Babu, e no caso mais recente, Rodolfo e Sarah, que além de já terem declarado apoio à política contraditória de Jair Bolsonaro, também houve a fala referente ao cabelo de João, por parte de Rodolfo. 

Acontece que colocar essas situações numa balança e dizer que as opressões reproduzidas nas ações de todos citados são menos piores que as de Karol, é estar equivocado. Até quando a situação avaliada é a de Lucas, em que ela reproduz a violência racial que ela mesma sofre. Por se tratar de duas pessoas pretas, as ações referentes a Lucas não podem ser consideradas piores do que aquelas que são praticadas por pessoas brancas que tem poder de reforçar a manutenção das diferenciações raciais. É necessário, destacar também, que pessoas pretas também podem reproduzir o racismo, ser preto não significa ser livre de construções sociais determinadas pela sociedade, a diferença é que pretos reproduzem aquilo que os oprimem, brancos reproduzem aquilo que mantém a diferenciação nos espaços de privilégios.

Opressões são fatos sociais, e fatos sociais não se medem, são uma realidade que precisa ser tratada, portanto, não é possível lutar contra um e permitir que o outro continue sendo reforçado. Dessa forma, se as ações de Karol foram nocivas, a de todos os outros participantes também foram e por que não há a mesma indignação social e punição?

Nossas escolhas, assim como o julgamento que fazemos sobre determinadas coisas e pessoas, também são construções sociais, e quando falamos especificamente de corpos de mulheres negras, há diversas camadas dessa discussão que poderiam ser levantadas e, juntas, justificariam todo esse foco em Karol, mas vamos no ater à situação da afetividade. Corpos negros sofrem com esquemas mentais associados durante séculos a maus tratos, falta de afeto e desumanização, por isso, é muito difícil que a mesma régua de empatia usada para perdoar os erros de pessoas brancas, seja também utilizada para um corpo negro, sendo mais fácil que o corpos brancos recebam afeto. E no caso de mulheres negras, há outros fatores que atravessam esse senso de justiça, e contribuem para o agravamento das punições, como o fator do gênero e da própria lógica de punição, que são consequências coloniais atribuídas a esses corpos. 

Para além da Karol, podemos visualizar essa mesma situação refletida nas porcentagens de eliminações de outros participantes negros. O perdão parece só ser possível para corpos claros, e por isso, tudo que estamos assistindo em relação às diversas movimentações de Karol para alcançar o perdão do público chegam a parecer absurdas, no entanto, são necessárias, já que sem esse esforço sua carreira e vida estariam condenadas. 

Vale refletir sobre os critérios utilizados, mas não percebidos para avaliar e condenar as ações de uma mulher negra que erra em um programa de entretenimento e precisar gerir uma enorme crise de comunicação para que sua carreira não seja destruída, diante de  várias pessoas brancas que muitas vezes usam do seu espaço de poder e/ou privilégio para legitimar inúmeras violências contra minorias. No entanto, essas mesmas pessoas seguem suas vidas e carreiras tranquilamente, ganhando contratos, espaço na mídia e até mesmo chegando à presidência. 

Dessa forma, há muitas questões que a situação de Karol nos possibilita refletir, sobre dor, por exemplo, sendo uma delas. Para o público, ela deve sofrer tudo que causou, é como se a dor que os outros discursos e ações diariamente refletem a longo prazo fossem menores do que a dor infligida pela rapper. No entanto, assim como opressões, dores não podem ser medidas e comparadas. E se for desse jeito, por que as ações de Karol feriram mais? 

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