Ariel Bentes e Isabella Botelho; 30/11/2020 às 10:30

A próxima pandemia pode surgir na Amazônia

O desmatamento e as mudanças climáticas causadas pelo homem na Amazônia podem ser um dos principais fatores para futuros surtos de doenças

O rápido avanço do desmatamento na Amazônia está criando condições para o surgimento de futuras epidemias. É consenso na área científica que a perda da floresta pode levar à emergência de novos vírus e bactérias perigosos contra os quais a humanidade tem pouca defesa, resultando em epidemias e pandemias.

O artigo “Além da perda de diversidade e das mudanças climáticas: Impactos do desmatamento da Amazônia” sobre doenças infecciosas e saúde pública, publicado no Anais da Academia Brasileira de Ciências, principal periódico científico brasileiro, revela que mudanças climáticas causadas pelo homem na Floresta Amazônica podem ser um dos principais fatores para futuras emergências de saúde pública, como surtos de doenças.

Assinado por Joel Henrique Ellwanger, Philip Fearnside e outros 12 coautores, o artigo propõe o estudo da importância da Floresta Amazônica no controle de zoonoses. Logo no início, a pesquisa afirma que a Amazônia é um bioma único em muitos aspectos e é importante em diferentes esferas da vida. Por isso, segundo os pesquisadores, protegê-la é crucial para a manutenção da saúde do planeta.

O texto avança e mostra que as ações humanas sob a Floresta Amazônica, mudanças climáticas, alterações nas dinâmicas de vetores, migração humana, mudanças genéticas em patógenos e baixas condições sociais e ambientais em muitos países da América Latina podem dar espaço ao que chamam de ‘tempestade perfeita’ para o surgimento e ressurgimento de doenças infecciosas no Brasil e em outros países amazônicos.

“A fauna amazônica abriga uma enorme diversidade de patógenos conhecidos, assim como muitos outros novos potenciais ou até mesmo desconhecidos. Embora boa parte desses patógenos tenha um baixo potencial infeccioso em humanos, essa abundância de microorganismos na região indica que a emergência de novas infecções vindas da floresta é uma ameaça constante à saúde humana”, explica um trecho da pesquisa.

Bem como o surgimento de novas doenças, o desmatamento também preocupa por dar forças a doenças já existentes. Em entrevista ao Mercadizar, Lucas Ferrante, biólogo, pesquisador e doutorando em Ecologia do Inpa, explicou como esse processo de ressurgimento de causas de doenças está associado ao desmatamento: “No caso da China, isso é muito comum por conta do consumo de animais silvestres nos mercados. O coronavírus passou de um morcego para um pangolim e, depois, ele foi transmitido para os humanos através do consumo da carne. No Brasil, temos muitos exemplos disso, não precisamos ir muito longe para ver esse fenômeno acontecer. Em Manicoré [no interior do Amazonas], por exemplo, tem aumentado exponencialmente os casos de malária por conta do desmatamento na BR-319. De 2015, quando a BR foi aberta, até 2020, observamos um aumento gradual anual de 400% na incidência de malária. Essa degradação ambiental e o maior contato com animais silvestres propiciam o surgimento destas zoonoses”, continua.

De acordo com Ferrante, a BR-319 corta um dos grandes blocos de floresta preservados na Amazônia e o conecta diretamente ao arco do desmatamento. A rodovia, que interliga a capital do Amazonas à Porto Velho, em Rondônia, será um vetor de zoonoses, principalmente para os municípios e comunidades próximas.

Assim como os outros cientistas já citados, Alessandra Nava, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz), também confirma que o desmatamento é um dos principais causadores de doenças infecto-contagiosas de caráter zoonótico. Segundo ela, desde o surgimento da Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars) em 2002, que aflingiu a China e é provocada por vírus nomeado como SARS-CoV1, diversos grupos de cientistas fizeram um monitoramento ativo em áreas do planeta com alta biodiversidade e pressão antrópica, no qual o desmatamento ocorria visando a criação de pasto e mineradoras e extração de madeira.

Ao Mercadizar, Alessandra contou como acontece uma zoonose:

“Temos a ecologia natural dos patógenos, seus reservatórios e hospedeiros e muitas das vezes há animais que possuem esses micro-organismos sem ficarem doentes. Para o ser humano ser um hospedeiro suscetível para esses patógenos, ele tem que possuir receptores que permitam a entrada do mesmo e existem processos de mutação viral que permitem isso. Essa mutação ocorre pelo contato do agente com outros animais, com o qual ele não teria convívio natural. Isso ocorre onde há diversas espécies de animais juntos de uma forma adensada, dividindo um mesmo espaço, secreções e fezes e possibilita ao agente uma mutação”, explicou. 

Na história do mundo diversas pandemias e epidemias são originárias de animais e a origem do Covid-19, também batizado como SARS-CoV2, não é muito diferente. Em entrevista ao site Veja Saúde, Eduardo Brandão, professor da Universidade de São Paulo (USP) e virologista especialista em coronavírus, afirma que a SARS-CoV2 é um “parente” da SARS-CoV1 e existem duas hipóteses documentadas de como possivelmente ocorreu a contaminação do vírus com os seres humanos.

A primeira hipótese diz que o vírus entrou em contato com a espécie humana e criou estratégias para fazer a contaminação. Já a segunda diz que ele teria vindo “pronto” de um morcego e feito a transmissão com o humano de modo mais acelerado. Além disso Eduardo conta que o contato com salivas e fezes de animais silvestres é o principal vetor de transmissão, contato esse que é intensificado com o desmatamento.

Para Alessandra, apesar dos grandes esforços de cientistas e instituições em monitorar áreas desmatadas e animais silvestres, com os altos índices de desmatamento a pandemia do Covid-19 já era esperada. “A solução para evitar o surgimento de novas epidemias é parar o desmatamento. Ele é o gatilho mais importante. Infelizmente, o poder público prefere não ouvir a ciência e privilegiar o lucro imediato para uma pequena e poderosa parcela que ganha muito dinheiro com o desmatamento e a grilagem”, afirmou.

O desmatamento se mostra cada vez mais prejudicial para a saúde da humanidade e interfere diretamente no clima, na fauna e na flora e agora mais do que nunca na rotina do ser humano. Lutar pela preservação ambiental é cobrar dos gestores públicos a implementação de políticas públicas que combatam o desmatamento na Amazônia e no mundo, é promover atividades educativas que levem informações sobre o meio ambiente e a sustentabilidade, valorizar a ciência e contestar discursos que incentivam mudanças nas leis longe dos olhos da sociedade.

“Justamente porque não discutimos a questão ambiental e as crises ecológicas geradas no contexto do capitalismo, nós chegamos a essa pandemia. Os nossos padrões de consumo, exploração da natureza e de mundialização das mercadorias produziram essa situação. Se não mudarmos essa lógica, essa pandemia é apenas o começo. Um elemento assustador é que, se já esperávamos uma pandemia, não podemos duvidar que estamos na iminência de tornar a crise climática irreversível. E, quando isso acontecer, a sociedade vai reconhecer que o discurso científico já denunciava a possibilidade de uma crise definitiva”, analisa Luiz Fernando de Souza Santos, sociólogo e professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

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