Ao longo do tempo, o sertão brasileiro foi marcado por um imaginário que o associa à escassez, à seca e à falta. Esse olhar, muitas vezes massificado e reproduzido, acaba por reduzir a complexidade de um território profundamente atravessado por memórias, culturas, saberes, tecnologias ancestrais e formas de resistência. É justamente a partir da desconstrução desse imaginário que Héloa constrói “ÁRIDA”, transformando a ideia de aridez em potência, vida e abundância.

O resultado dessa pesquisa chega ao público no dia 8 de outubro com o lançamento de “ÁRIDA”, quarto álbum da cantora, compositora e multi artista afro-indígena sergipana. Lançado pelo selo Aláfia Cultural em parceria com a YB Music, o projeto reafirma a posição de Héloa como uma das vozes mais contundentes da música brasileira contemporânea na valorização das culturas negra, indígenas e nordestina.
Composto por 11 faixas, sendo sete de autoria de Héloa, em parcerias com Tiganá Santana, Jorge Du Peixe, Liu Kid, Yuri Queiroga e Souto MC, o disco investiga as influências afro-indígenas e árabe-africanas que atravessam a formação cultural do semiárido brasileiro. O repertório reflete um mosaico de encontros e gerações da diáspora africana e das tradições nordestinas.
Entre as participações especiais estão Mestrinho, Souto MC, Maestro Spok, Luedji Luna, Cauê Silva, Tiganá Santana, Jorge Du Peixe e o grupo indígena Sabuká Kariri-Xocó, além dos artistas angolanos Jéssica Areias e Liu Kid. O álbum conta também com releituras marcantes: “Flor de Mandacaru” (Chico César), “Charles Ilê” (Carlinhos Brown) e “De Amor Eu Morrerei” (Dominguinhos e Anastácia), revisitadas sob a linguagem do projeto. O time de músicos convidados traz nomes de peso como Pupillo e Thomas Harres.
A sonoridade deste trabalho passeia pelo forró, baião, rap, xaxado, rojão, afrobeat, reggae e outras sonoridades da diáspora, estabelecendo um diálogo com as matrizes musicais árabe-africanas e indígenas que atravessam a formação cultural do Nordeste. O álbum ressalta as tradições nordestinas ao mesmo tempo em que incorpora uma rítmica marcada pelos sons dos terreiros de Candomblé e das aldeias, pelos tambores e por instrumentos como pífano e djembê, em diálogo com beats eletrônicos e samples, que têm papel fundamental na construção da paisagem sonora do disco. As diversas camadas de vozes e narrações ampliam ainda a dimensão poética de “ÁRIDA”.
A pesquisa musical e a concepção do álbum são assinadas por Héloa e Yuri Queiroga, que também assinam a direção musical. Yuri Queiroga responde pela produção musical, por boa parte dos arranjos e toca diversos instrumentos ao longo do disco. A assinatura percussiva de Cauê Silva completa essa construção sonora.
“Em ÁRIDA, a Caatinga e o semiárido deixam de ser compreendidos como símbolos de escassez para se afirmarem como territórios de tecnologia ancestral, abundância cultural e potência criativa. É uma leitura que afirma a força, a diversidade e a beleza das manifestações e dos povos que habitam esses territórios e que seguem resistindo, construindo e recriando suas próprias formas de existência, em contraposição aos estereótipos historicamente atribuídos ao sertão e à aridez”, explica a artista.
“Dança N’kisi Dança” foi o primeiro single lançado do projeto, em setembro, e abriu caminho para a chegada de ÁRIDA. A faixa traz as participações especiais de Luedji Luna e Liu Kid, criando uma ponte direta e festiva entre Brasil e Angola através da palavra, do corpo e da ancestralidade banto. A música celebra o Candomblé Angola e ressalta a presença dos vocábulos angolanos no português falado no Brasil, convidando o público ao movimento e à dança coletiva.”
Agora, o álbum chega às plataformas digitais tendo “Flor de Mandacaru” como faixa-foco. De autoria de Chico César, a canção ganha uma nova leitura na voz de Héloa, em um encontro especial com Mestrinho. A faixa celebra o forró como expressão de memória, pertencimento e continuidade, evocando as tradições, os povos e as paisagens à beira do Rio São Francisco. Em sua sonoridade, o forró se afirma como linguagem viva, atravessada por saberes ancestrais, encontros culturais e pela força dos territórios nordestinos.
Logo em seguida, o projeto apresenta o videoclipe de “Acenda Essa Fogueira”, com participação do grupo indígena Sabuká Kariri-Xocó e de Souto MC. Registrado na própria aldeia Kariri-Xocó, o filme ressalta a força e a presença dos povos originários da Caatinga e dos povos ribeirinhos do rio Opará, em uma celebração de seus saberes, territórios e formas de resistência.
O lançamento de “ÁRIDA”, contemplado pelo Edital de Fomento à Música para a Cidade de São Paulo, será acompanhado por uma agenda de apresentações e ações de lançamento que passará por São Paulo, Piracicaba e Rio de Janeiro, incluindo uma audição do disco no Museu Afro Brasil, o show de lançamento no CCSP, o Festival Curau, o circuito Sesc Pulsar e o Rock The Mountain.