Comunicação

Racismo ambiental é discutido durante realização da 5ª edição do Festival de Cinema das Periferias e Comunidades Tradicionais da Amazônia

No próximo domingo, 1º de maio, serão exibidos os filmes produzidos e protagonizados pelos participantes da formação e intercâmbio sobre cinema promovido pela 5ª edição do Festival de Cinema das Periferias e Comunidades Tradicionais da Amazônia – Telas em Movimento, com realização da Negritar Filmes e Produções em parceria com a Associação de Moradores do Bairro Pérola do Maicá (AMBAPEM), a ONG Fase, a Dzawi Filmes e a Na Cuia Produtora Cultural, e apoio do Instituto Clima e Sociedade. 

A temática “racismo ambiental” é o foco principal das narrativas construídas e protagonizadas pelos participantes, entre eles jovens, pescadores, agricultoras e quilombolas moradores do bairro. A partir do cinema e da vivência de cada comunitário, eles apresentam suas lutas e a importância do bairro para a sociedade, evidenciando, ainda, como problemas ambientais afetam desproporcionalmente as populações negra, indígena e outras comunidades tradicionais, que sofrem mais com os efeitos da exploração predatória do meio ambiente. 

Foto: Tay Silva

Situado em uma área periurbana do município de Santarém, o bairro Pérola do Maicá possui uma diversidade de moradores e identidades composta por quilombolas, indígenas, agricultores e agricultoras, pescadores e ribeirinhos que convivem numa dinâmica de vida que entende a natureza como fundamental para a sobrevivência, destacando, também, as diferentes atividades ligadas ao Lago do Maicá, berçário natural de espécies únicas da fauna aquática. A comunidade, no entanto, enfrenta vários desafios relacionados à ausência do estado no cumprimento de políticas básicas, como infraestrutura, educação e saúde, conforme salienta Yuri Rodrigues, 25, gestor público e educador popular da Fase Programa.

“Essa ausência de políticas públicas favorece as estratégias do avanço de grandes empresas e projetos que tentam passar por cima da identidade e ancestralidade e do lugar que essas pessoas vivem, por entenderem a natureza e a vida das pessoas como mercadoria”.

O Lago da Maicá está na rota para ser utilizado como sede para a construção de um Terminal de Uso Privado (TUP) pela Empresa Brasileira de Portos em Santarém (Embraps), o que preocupa as populações originárias e ribeirinhas. O projeto já foi sentenciado a condição de liberação somente mediante consulta prévia livre e informada  de povos quilombolas e indígenas residentes do território, que não foi cumprida conforme determinação da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). 

Para Valdeci Oliveira, 55, moradora do bairro há 15 anos e há 2 anos na função de presidenta da AMBAPEM, as melhorias de condições sociais da comunidade aconteceram diante de muita luta dos próprios comunitários e da ausência do poder público. ” A gente tem muitas carências e a luta dessa associação no decorrer desses 30 anos foi a partir dos próprios comunitários, uma luta muito árdua para conseguir iluminação pública, abertura de rua, etc. Isso pra mostrar de fato como a gestão pública é omissa às necessidades das comunidades e, principalmente, das organizações sociais, que é o que temos vivenciado, essa grande dificuldade que é dialogar com o poder público no sentido do cumprimento das políticas públicas que são direitos dos cidadãos, não é troca de votos e nem de favores, é exatamente direitos”

Frente a este cenário, a disputa de narrativas na esfera pública de debate por parte das juventudes, das populações quilombolas, indígenas e ativistas que protagonizam a defesa e a conservação dos territórios é fundamental para o fortalecimento do espaço cívico na Amazônia, além de possibilitar que a comunicação popular e o audiovisual possam ser utilizados como instrumentos de defesa e visibilização das potencialidades dos territórios, conforme explica Tayna Silva, 23, coordenadora de comunicação do festival e da Negritar Filmes e Produções.

“A gente entende o cinema como essa ferramenta de impulsionamento das narrativas e vozes da própria comunidade e a gente retorna a Santarém para fortalecer ainda mais essa bandeira de que o cinema não é só o nosso lazer, ele é também o nosso fazer, a nossa denúncia”.

A formação em cinema conta com jovens que participaram da 4° edição do festival, realizada na Aldeia Vista Alegre do Capixauã, dentro da Resex Tapajós-Arapiuns, e na comunidade de Vila Brasil, no Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Lago Grande, como monitores e responsáveis por um intercâmbio entre os participantes do bairro Pérola do Maicá e os Guardiões do Bem Viver, coletivo de jovens que atuam no enfrentamento a mineração com incentivo da Fase Programa Amazônia, que já possui um histórico de atuação na região objetivando unificar cada vez mais as lutas do campo e da floresta às lutas das periferias urbanas.

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