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#MercadizarIndica: Da crítica à homenagem em “Hollywood”

Nos dias de hoje, com a indústria do entretenimento rendida ao movimento #MeToo, parece inconcebível que artistas façam teste do sofá ou que um filme seja cancelado apenas por ter uma atriz negra ou asiática em papel de destaque. Essas situações, porém, eram comuns no passado. E a minissérie Hollywood, lançada este mês pela Netflix, escancara que a chamada “era de ouro” do cinema não era tão dourada assim.

Criada por Ryan Murphy, um dos mais respeitados produtores da indústria e o responsável por séries como “American Horror Story”, “Pose”, “Nip/Tuck”, “Glee” e “The Politician”. Hollywood é ambientada nos Estados Unidos pós-Segunda Guerra Mundial e acompanha em sete episódios, um grupo de jovens aspirantes a atores e cineastas enquanto eles tentam alcançar o sucesso, muitas vezes sem olhar a meios para atingir os fins.

O protagonista da trama é Jack Castello (David Corensweet, de The Politician), jovem que voltou da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e sonha em ser ator para provar à família e a si mesmo que pode ser alguém importante. Sem nenhuma experiência na atuação, ele aceita trabalhar em um posto de gasolina diferenciado – os frentistas não apenas abastecem os carros, mas fazem programas sexuais com os clientes.

Em sua primeira vez, Castello tem a sorte de ser abordado por Avis Amberg (Patti LuPone), mulher do presidente do fictício estúdio Ace Pictures. Com o apoio dela, Jack consegue um contrato e começa sua escalada para se tornar um astro.

Hollywood também apresenta outras quatro promessas da indústria: o jovem diretor Raymond Ainsley (Darren Criss, vencedor do Emmy por American Crime Story), a atriz negra Camille Washington (Laura Harrier), o roteirista negro Archie Coleman (Jeremy Pope) e o ator homossexual Rock Hudson (Jake Picking).

Hudson, aliás, é apenas um dos personagens da vida real que se misturam à narrativa fictícia de Hollywood. O poderoso agente Henry Wilson ganha a aparência de Jim Parsons (o Sheldon, de The Big Bang Theory), e estrelas da época como Vivien Leigh e Hattie McDaniel (ambas de …E o Vento Levou) também dão as caras.

(Foto: Divulgação)

Preconceito não velado

Por meio de seus cinco protagonistas, Ryan Murphy constrói uma narrativa que expõe o racismo e a homofobia vigentes na época, e que perduram até hoje, apesar de serem bem menos explícitas em um mundo “politicamente correto”, ao mesmo tempo em que contrasta o charme do cinema com a sordidez de uma indústria marcada pela batalha de egos. Isso fica evidente em uma porção de cenas pensadas para escancarar esse dualismo.

Em meio ao deslumbre de corpos masculinos sarados, nus, correndo à beira de uma luxuosa piscina em Beverly Hills, estão poderosos da indústria que manipulam jovens com sonhos de atuar. Na mansão suntuosa em Palm Springs de um dono de estúdio, uma atriz vai para cama com ele temendo perder seu contrato. Já o roteirista Archie e a atriz Camille sofrem para serem vistos além de sua cor de pele. Eles ganham como aliado Raymond Ainsley, que decide dirigir um texto do novo colega e luta para escalar sua namorada Camille para o papel de protagonista, mesmo sabendo que isso geraria dezenas de protestos e até que o filme fosse banido dos cinemas nos conservadores Estados do Sul dos Estados Unidos.

São histórias sombrias mascaradas pelas cores e a magia do cinema, algo intrínseco a narrativas que retratam essa era da indústria cinematográfica.

E se…

Apesar da temática, a série se apropria do humor para satirizar a indústria e propor uma reimaginação dos fatos, como explicou uma de suas produtoras Janet Mock em comunicado oficial:

“E se um grupo de outsiders tivesse a oportunidade de contar a sua história? E se a pessoa com poder de aprovar uma produção fosse uma mulher? E se o roteirista fosse negro? E se a heroína fosse negra? E se o ídolo fosse abertamente gay? E se eles todos fossem convidados à sala onde as decisões são tomadas, entrando totalmente para saírem vitoriosos, com o seu lugar na história assegurado. Hollywood é uma carta de amor para a nossa pequena cidade da indústria onde os sonhadores vivem, as estrelas nascem e a magia transcende a realidade”.

Com reconstituição primorosa da época e um olhar surpreendente para o sistema de estrelas da era de ouro do cinema, Hollywood merece ser vista tanto por amantes da sétima arte quanto por aquele público que não aguenta mais ser vítima do preconceito, seja ele qual for.

Todos os episódios já estão disponíveis na Netflix.

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