Uma história de vingança atravessada pela violência doméstica, ambientada em Manaus. De outro lado, um eco-thriller protagonizado por um personagem indígena Wapichana, que retorna ao território de origem para combater o tráfico de uma ave sagrada e ameaçada de extinção. Embora partam de universos bastante distintos, os projetos “Enterrado no Quintal”, do cineasta amazonense Diego Bauer, e “Amor no Rupununi”, da produtora e realizadora Jama Wapichana, têm um ponto em comum: ambos são exemplos da diversidade de narrativas que o audiovisual produzido na região Norte busca levar às telas.

Os dois projetos estão entre os selecionados para o Lab Norte Narrativo, laboratório de desenvolvimento de obras de ficção que integra a programação da nona edição do Matapi – Mercado Audiovisual das Amazônias. A iniciativa reúne cinco projetos de curta e longa-metragem em um percurso de formação e acompanhamento profissional, com atividades voltadas ao desenvolvimento narrativo, design de audiência, produção executiva e preparação para apresentação ao mercado.
O laboratório acontece de 9 a 27 de novembro, com atividades online e uma etapa presencial em Manaus, integrada à programação do Matapi. Durante o encontro, os participantes terão contato com profissionais do audiovisual e apresentarão seus projetos em sessões de pitching.
Para a roteirista e mentora do Lab Norte Narrativo, Xenia Rivery, um dos objetivos do trabalho é ajudar cada realizador a reconhecer aquilo que torna sua história singular. Como os participantes chegam com experiências e níveis de desenvolvimento diferentes, a proposta inicial é nivelar conhecimentos e observar as particularidades de cada formato, sem perder de vista a relação pessoal dos autores com suas narrativas.
“Interessa-me, sobretudo, explorar os vínculos pessoais dos autores com suas narrativas [suas obsessões morais, políticas, estéticas] e ajudá-los a potencializar a singularidade de suas propostas”, explicou Xenia. A partir disso, o trabalho também passa pela estrutura dos roteiros e pela relação entre a intenção dos realizadores e o público que desejam alcançar.
A mentora considera, ainda, valiosa a oportunidade de reunir diferentes olhares profissionais em torno de uma mesma obra. “Minha expectativa é que os participantes saiam mais conscientes do que têm em mãos, e com ferramentas para dar continuidade ao desenvolvimento de seus projetos”.
Histórias
Em “Enterrado no Quintal”, Diego Bauer retoma uma história que já faz parte de sua trajetória. O projeto nasceu de um curta-metragem lançado em 2020, adaptação de um conto do escritor amazonense Diego Moraes. A experiência deixou no cineasta o desejo de ampliar aquela narrativa e transformá-la em um longa-metragem.
A trama acompanha uma mulher na casa dos 30 anos que, depois de conviver na adolescência com a violência doméstica praticada pelo ex-padrasto contra sua mãe, alimenta por anos o desejo de se vingar. Quando descobre onde ele está, decide colocar em prática um plano.
Antes do Lab, o roteiro já havia passado por uma consultoria realizada por meio de um edital da Lei Aldir Blanc, com o cineasta Marcelo Caetano. O processo resultou em dois tratamentos do roteiro e ajudou Bauer a amadurecer a proposta. A seleção para o laboratório representa, agora, uma oportunidade de aprofundar questões narrativas e de produção.
Um dos pontos que o realizador pretende trabalhar é a responsabilidade na construção de uma história sobre violência doméstica e vingança, especialmente por conduzir, como homem, uma narrativa centrada na experiência de uma personagem feminina. Outro desafio está na construção visual da obra e na maneira de representar Manaus.
“Eu aposto muito nesse filme, na abordagem que a gente vai fazer da cidade de Manaus, dos bairros de Manaus”, comentou Bauer. Para ele, o desafio é encontrar uma abordagem inventiva, sem perder a coerência das personagens e a responsabilidade diante do tema. O objetivo é chegar a um roteiro que concilie força narrativa e condições de realização.
Soberania indígena
Já “Amor no Rupununi”, de Jama Wapichana, parte de uma experiência ligada à fronteira entre Roraima e a Guiana. A história acompanha Frederick, um sargento indígena Wapichana que tenta sufocar sua identidade na capital guianense. Ao retornar ao lavrado, ele se junta a uma brigada de monitoramento para combater o tráfico internacional do Red Siskin – o Tarim -, uma ave sagrada e ameaçada de extinção.

A proposta combina suspense, preservação ambiental e questões relacionadas à identidade e à soberania do cinema indígena. Segundo Jama, a ideia surgiu de sua vivência e de uma pesquisa de campo na região de fronteira. Quando foi selecionado pelo Lab Norte Narrativo, o projeto estava em uma etapa de transição entre a escaleta e a escrita detalhada do roteiro de longa-metragem.
Para a realizadora, um dos principais desafios é viabilizar financeiramente o desenvolvimento do roteiro, incluindo a formação de uma sala de escrita com profissionais e consultores. A produção também exige planejamento específico para uma obra de ação filmada em uma região de savana e fronteira, o que envolve questões logísticas e de estrutura.
Jama espera que o laboratório ajude a organizar tanto a estratégia de mercado quanto o modelo de produção do filme. “A expectativa, após passar pelas consultorias de roteiro, é sair com ele [o roteiro] e o plano de negócios estruturados para as rodadas de apresentação [pitching]”, afirmou. A realizadora vê o Matapi como uma oportunidade de aproximação com coprodutores, distribuidores e fundos de financiamento.
Além de “Enterrado no Quintal” e “Amor no Rupununi”, foram selecionados para o Lab Norte Narrativo, também, os projetos “Todo Rio Deságua no Mar”, de Rodrigo Aquiles Santos; “Janaú”, de Jean Ferreira da Silva; e “Marca D’Água”, de Laryssa Gaynett.
Para além dos projetos – Embora cada obra tenha necessidades específicas, os relatos dos participantes apontam para uma questão comum: desenvolver um roteiro também significa pensar nas condições para que ele se transforme em filme. A construção de personagens, a estrutura narrativa e a linguagem precisam caminhar junto com decisões sobre público, orçamento, produção e possíveis parceiros.
É justamente nessa articulação que o Lab Norte Narrativo procura atuar. Além das mentorias de desenvolvimento narrativo, a programação inclui atividades de design de audiência, produção executiva, modelos de financiamento e preparação para pitching. A proposta é que os realizadores ampliem suas ferramentas para apresentar os projetos e identificar caminhos possíveis de realização.
Xenia Rivery destaca que o intercâmbio entre profissionais de roteiro, produção, direção e outras áreas pode ser tão importante quanto as orientações específicas recebidas durante as sessões. “A oportunidade de trocar ideias e receber diferentes perspectivas ajuda os realizadores a compreender melhor o potencial de suas próprias obras”, disse.
A iniciativa também dialoga com um desafio mais amplo do audiovisual brasileiro: a concentração de oportunidades de formação, financiamento e mercado fora das regiões Norte e Nordeste. Xenia, que tem uma trajetória profissional mais ligada ao Nordeste e a São Paulo, ressalta a importância de políticas culturais, laboratórios e fundos regionais para que projetos de diferentes territórios amadureçam e alcancem o circuito nacional.
Sobre o Lab e o Matapi
A etapa presencial do Lab Norte Narrativo acontece dentro da nona edição do Matapi, de 24 a 27 de novembro de 2026, no Palacete Provincial, em Manaus. Além das atividades formativas, os projetos participantes terão acesso à programação do mercado audiovisual e apresentarão seus pitchings a profissionais convidados. A proposta é que o encontro não termine com o laboratório, mas ajude a abrir novos caminhos para que essas histórias avancem até a realização.