Celebrado em 5 de setembro, o Dia da Amazônia coloca em evidência os desafios ambientais que atingem a região. Entre os fatores que podem interferir no clima amazônico está o El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico Tropical e capaz de alterar a circulação atmosférica, as chuvas e as temperaturas.
Em 2026, o fenômeno está presente e vem se fortalecendo. O cenário exige atenção para a evolução da atual estação seca e para o comportamento da próxima estação chuvosa, já que as condições observadas nos próximos meses podem influenciar o ciclo hidrológico de 2027.
Para a pesquisadora Rosimeire Araújo Silva, especialista em clima e meio ambiente amazônico, os possíveis impactos do fenômeno dependem não apenas da presença do El Niño, mas também de sua evolução e da interação com outras condições oceânicas.
Os diferentes tipos de El Niño e os efeitos na Amazônia
O El Niño ocorre quando há um aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico Tropical, alterando a circulação atmosférica e, consequentemente, os regimes de chuva e temperatura. Na Amazônia, entretanto, os efeitos não são uniformes.
Entre os fatores que determinam a resposta da região estão o local onde o aquecimento se concentra, o momento em que o fenômeno começa, sua evolução e o tempo de permanência das anomalias.
“É importante entender que o El Niño pode apresentar diferentes trajetórias espaciais ao longo de seu desenvolvimento, deslocando ou expandindo as áreas de maior aquecimento entre as diferentes regiões do Pacífico Tropical, como Niño 1+2, Niño 3, Niño 3.4 e Niño 4. Essas diferenças de início, evolução e duração ajudam a explicar por que dois eventos de El Niño podem produzir respostas climáticas distintas na Amazônia.”
Em estudo realizado considerando eventos entre 1950 e 2022, Rosimeire analisou dois padrões principais: o El Niño Central, associado a uma maior influência do aquecimento no Pacífico Central, e o El Niño Oriental, caracterizado por um aquecimento mais concentrado no Pacífico Leste.
Os resultados indicaram que o El Niño Central apresentou influência mais forte e abrangente sobre as condições de seca, especialmente nas regiões norte e central da bacia amazônica. O El Niño Oriental apresentou respostas mais moderadas e espacialmente heterogêneas.
“Portanto, não basta dizer apenas que houve El Niño. Precisamos observar sua trajetória: onde ele começa, como as anomalias se deslocam e evoluem entre as diferentes regiões do Pacífico e quanto tempo permanecem. É essa dinâmica espacial e temporal que ajuda a determinar como o fenômeno irá se refletir sobre o clima amazônico.”
Chuvas e níveis dos rios estão entre os principais pontos de atenção
Na Amazônia Central, a estação chuvosa é fundamental para a reposição da água que será armazenada na bacia e sustentará o sistema hidrológico ao longo do ano. O período entre dezembro e fevereiro é especialmente importante nesse processo.
Quando o El Niño atua nessa fase e reduz as chuvas, os efeitos podem aparecer meses depois, durante o período de vazante. Uma estação chuvosa com precipitação abaixo do esperado pode fazer com que a região chegue à estação seca com menos água armazenada.
A partir de julho, quando as chuvas naturalmente diminuem, as condições do Atlântico Tropical passam a ter papel ainda mais importante na dinâmica climática da região.
“A partir de julho, as chuvas naturalmente diminuem e o Atlântico Tropical passa a ter um papel ainda mais importante. Por isso, uma grande seca não depende apenas da intensidade do El Niño, mas da sequência de condições que acontecem antes e durante o período de águas baixas.”
A influência também varia conforme a área da bacia. Enquanto o El Niño Central apresentou maior associação com condições de seca nas regiões norte e central da Amazônia, as anomalias associadas ao Atlântico Tropical, como o Dipolo do Atlântico, apresentaram maior influência sobre a porção sul e sudoeste da bacia.
| Forçante climática | Regiões mais relacionadas | Possíveis efeitos |
| El Niño Central | Norte e região central da bacia | Maior associação com condições de seca e redução das chuvas |
| Atlântico Tropical / Dipolo do Atlântico | Sul e sudoeste da bacia | Maior influência sobre as condições de chuva e estiagem |
Seca e incêndios: o clima cria condições, mas não causa o fogo
A redução das chuvas e o aumento das temperaturas podem deixar a vegetação mais seca e vulnerável à propagação do fogo. No entanto, isso não significa que o El Niño seja responsável diretamente pelos incêndios florestais.
“O El Niño não causa diretamente o fogo. Ele cria condições que deixam a floresta mais vulnerável. Com menos chuva e temperaturas mais altas, a vegetação perde umidade e fica mais inflamável. Se isso acontece em uma paisagem onde já existe desmatamento e uso do fogo, o risco de incêndios aumenta muito.”
Um estudo realizado pela pesquisadora em Boca do Acre, no sudoeste da Amazônia, analisou incêndios e níveis dos rios entre 1985 e 2024. Os quatro anos com maior ocorrência de incêndios extremos — 2005, 2010, 2016 e 2024 — também apresentaram níveis baixos dos rios.
Em 2024, a seca foi extrema e ocorreu em um contexto de fortes anomalias oceânicas. A distribuição dos incêndios, entretanto, apresentou relação com áreas que haviam passado recentemente por conversão florestal. Segundo a pesquisadora, mais de 80% dos focos analisados estavam a menos de um quilômetro de áreas desmatadas recentemente, entre 2021 e 2024.
“Isso mostra algo muito importante: o clima cria a condição para o fogo, mas o uso da terra ajuda a determinar onde ele vai acontecer e se propagar. Por isso, para antecipar os incêndios, precisamos combinar informações climáticas, hidrológicas e de uso e cobertura da terra.”
O que esperar dos próximos meses
O cenário climático de 2026 exige acompanhamento pela possibilidade de fortalecimento do El Niño. Segundo os dados analisados pela pesquisadora, o fenômeno está presente e vem se intensificando, com possibilidade de atingir intensidade forte a muito forte no final de 2026.
Nesse caso, os efeitos podem ultrapassar o ano e influenciar o ciclo hidrológico de 2027. A evolução observada no Pacífico e no Atlântico apresenta algumas semelhanças com o período que antecedeu a seca extrema de 2023, quando um El Niño forte evoluía ainda no início da estação seca em conjunto com um Atlântico Norte aquecido.
O cenário pode favorecer a redução das chuvas, temperaturas mais elevadas e queda mais rápida dos níveis dos rios durante a atual estação seca. A principal questão, porém, está no comportamento da próxima estação chuvosa.
“Mas existe uma questão ainda mais importante: o que vai acontecer com a próxima estação chuvosa? Se o El Niño atingir seu pico justamente nesse período e as chuvas forem comprometidas, a recuperação dos rios e do solo poderá ser insuficiente. Nesse caso, 2027 pode começar com um déficit hídrico já acumulado.”
A atuação do Atlântico Tropical será outro fator determinante. Caso o El Niño permaneça forte e o Atlântico apresente uma configuração desfavorável às chuvas, as condições hidrológicas entre 2026 e 2027 podem se aproximar das observadas entre 2023 e 2024.
Apesar do alerta, a pesquisadora ressalta que ainda não é possível afirmar que uma nova seca extrema ocorrerá.
“Ainda não podemos afirmar que teremos uma nova seca extrema. O que temos hoje é um sinal de alerta que precisa ser acompanhado continuamente, principalmente porque a evolução dos próximos meses será decisiva para determinar a intensidade e a duração desses impactos.”
Rio Negro ajuda a acompanhar o cenário
Os níveis dos rios são indicadores importantes para acompanhar a evolução das condições de estiagem na Amazônia. Em Manaus, a série histórica da cota do Rio Negro, com registros entre 1903 e 2024, permite comparar o comportamento do rio em diferentes períodos de seca e cheia.
A análise das condições oceânicas observadas em agosto de 2026, combinada com o histórico dos níveis do Rio Negro, reforça a necessidade de monitorar tanto a atual estação seca quanto a próxima estação chuvosa.
Entre os sinais que devem ser acompanhados estão chuvas abaixo do normal, temperaturas elevadas, perda de umidade da vegetação e do solo, aumento dos focos de calor e queda acelerada dos níveis dos rios.
Antecipar os extremos pode reduzir impactos
Os efeitos de uma estiagem prolongada não se limitam aos ecossistemas. Na região Norte, comunidades que dependem diretamente dos rios podem enfrentar dificuldades relacionadas à navegação, ao abastecimento de água, à produção e à segurança alimentar.
Para Rosimeire, o monitoramento precisa estar associado a ações antecipadas.
“A principal medida é se antecipar ao extremo. Quanto mais cedo identificarmos que os rios estão baixando, que a vegetação está perdendo umidade e que o risco de fogo está aumentando, maior será a capacidade de preparar as comunidades, organizar o abastecimento, planejar a navegação e reforçar as ações de prevenção e combate aos incêndios.”
A pesquisadora também destaca a capacidade histórica das populações amazônicas de conviver com o ciclo natural dos rios. O problema surge quando períodos de cheia e vazante se tornam mais intensos, prolongados ou imprevisíveis, especialmente em um contexto de mudanças climáticas.
“No fim, o mais importante é transformar o monitoramento em ação. As populações amazônicas possuem um profundo conhecimento e uma grande capacidade de adaptação ao pulso natural dos rios, convivendo historicamente com os períodos de cheia e vazante. O problema surge quando esses ciclos naturais se tornam mais intensos, prolongados ou imprevisíveis, especialmente em um contexto de mudanças climáticas.”
No Dia da Amazônia, acompanhar o comportamento do El Niño significa também observar como as mudanças no oceano podem repercutir sobre a vida na região Norte. Chuvas, rios, vegetação e uso da terra formam um conjunto de indicadores que ajudam a compreender os riscos e preparar a região para possíveis eventos extremos.