Isabella Botelho; 31/03/2021 às 10:00

O Tabu da Menstruação

Processo natural, inevitável e necessário do corpo humano, a menstruação acontece todo mês com mais da metade da população mundial. Qualquer pessoa que menstrua sabe que esse acontecimento vem com uma pesada carga social envolta de vergonha e medo. A primeira menstruação acontece por volta dos 12 anos de idade e, desde então, somos condicionadas a nos sentirmos constrangidas e envergonhadas em relação a ela. É difícil encontrar uma menina que não tenha sentido na pele esse tabu. Basta parar um pouco e relembrar: você nunca perguntou bem baixinho para uma amiga se ela tinha um absorvente e depois escondeu embaixo da blusa ou guardou no bolso da calça no caminho para o banheiro? Essa vergonha com algo tão natural não é saudável.

Quando menstruamos, fomos ensinadas a esconder e não falar sobre o assunto. No entanto, se não falamos, como vamos entender o que acontece com o nosso corpo? Não somos ensinadas de forma apropriada sobre nossos corpos, métodos contraceptivos, quais sintomas a menstruação pode causar, qual o impacto no nosso corpo e, mais importante, na nossa mente. Por que sentimos tantas dores? O que é a tensão pré-menstrual, a tal TPM? Esses assuntos são reprimidos e tratados de forma constrangedora por todos à nossa volta, o que pode trazer marcantes consequências, conforme explica a psicóloga Simone Russo em entrevista à Mercadizar. 

“A menstruação, ainda é muito ligada ao constrangimento e ao sofrimento, tem impactos negativos e por vezes nunca superados na vida das adolescentes. Estes podem ser diminuídos com informações que a preparem para a menarca, primeira menstruação, e para viver a menstruação como algo natural e que a acompanhará por muitos anos na vida. Neste sentido, não apenas a família e a escola, mas a sociedade pode contribuir para criarmos um discurso que permita que nossas meninas possam acolher com naturalidade e consciência sua vida menstrual”. 

Simone trabalha com atendimento psicoterapêutico para adolescentes e, segundo ela, é comum que meninas convivam com o período menstrual com muita dificuldade. “Já recebi para tratamento psicoterápico adolescentes com sintomas depressivos e fóbicos-sociais como consequência do início dos ciclos menstruais e muita dificuldade em aceitá-los e vivenciá-los de forma acolhedora e natural. Da mesma forma, não é raro escutar adolescentes afirmarem que gostariam de suspender seus ciclos menstruais por sentirem dor, vergonha, se acharem sujas ou menos capazes neste período”, afirma. 

Em 2017, a ONG Plan International UK, do Reino Unido, publicou um estudo apontando que 49% das garotas com idade entre 14 e 21 anos já perderam um dia de aula por causa da menstruação. Segundo a pesquisa, 59% optaram por não contar o motivo da ausência em sala de aula e 82% revelaram que escondem seus absorventes dos colegas. 

No Brasil, a situação não é tão diferente. Numa pesquisa realizada pela Sempre Livre em parceria com a KYRA Pesquisa & Consultoria, foi possível observar que 39% das mulheres pedem um absorvente emprestado como se fosse um segredo para tentar esconder que estão no período menstrual. Além disso, 40% das brasileiras afirmaram que se sentem sujas quando estão menstruadas. 

Tudo isso está ligado ao fato de aprendermos que é vergonhoso falar sobre menstruação. Afinal, socialmente, a imagem do sangue está diretamente relacionada a ferimentos e machucados. Mas então por que o sangue vindo da violência é normalizado e não nos causa repulsa como o sangue da menstruação? Até alguns anos atrás, as próprias propagandas de absorvente mostravam o sangue azul, enquanto comerciais de curativos mostravam o sangue vermelho. 

Pensamentos como este estão ligados a equívocos e preconceitos transmitidos de geração em geração desde os primórdios da humanidade. O sangue da menstruação é visto como perigoso e impuro desde a Antiguidade e isso afetou a forma como lidamos com ele até hoje. Na Grécia Antiga, de acordo com a historiadora Helen King em entrevista ao site especializado Clue, acreditava-se que as mulheres tinham uma carne mais esponjosa do que a dos homens e, por isso, elas absorviam mais sangue. Em 200 a.C, a mulher menstruada era considerada possuída por um espírito maligno e o homem que tivesse uma troca de olhares com ela poderia ser enfeitiçado. 

Na Idade Média, um pensamento que cercava a menstruação era a de que o sangue proveniente dela era venenoso, podendo até mesmo apodrecer colheitas e vinhos, além de sua capacidade de supostamente deixar animais em estado de loucura. Neste período da história, o catolicismo influenciou diretamente a forma como a sociedade medieval via a menstruação. Segundo a Bíblia, a mulher é biologicamente impura por ter consumido o fruto proibido no Jardim do Éden. Em entrevista à Mercadizar, a historiadora Isabel Varão explica que a Igreja era responsável por colocar a mulher em uma posição de herege, causadora do pecado e do desvirtuamento do homem caso não fossem submissas a eles. Em situações de “desobediência” daquelas já férteis, as mesmas eram jogadas na fogueira santa, já que a menstruação e o corpo feminino representavam o “apêndice do pecado”.

Crenças como as citadas acima perduraram durante séculos e, aliadas à construção da figura da mulher diante de uma perspectiva patriarcal, contribuíram para os estigmas associados à menstruação e, sobretudo, ao sangue proveniente dela. Demorou muito para que os primeiros olhares voltassem às questões femininas de forma a compreender o processo evolutivo por trás da menstruação, fertilidade e gravidez. Somente no final do século XIX e no início do século XX, com o avanço da tecnologia e uma percepção mais científica, o desenvolvimento de estudos aprofundados possibilitaram a descoberta de hormônios e o entendimento do que de fato é a menstruação. 

Na década de 60, a Contracultura surgiu nos Estados Unidos e no Reino Unido para  quebrar tabus e contrariar normas e padrões culturais que dominavam a sociedade. Dentre os diversos temas associados ao movimento, podemos destacar o feminismo, já em sua segunda fase, que visava questionar padrões de comportamento feminino e lutar pela liberdade sexual da mulher. Neste sentido, o movimento incentivou mulheres a se conectarem com seus corpos e sua intimidade. Consequentemente, questionamentos como a utilização do absorvente, do controle dos corpos, métodos contraceptivos e abortivos ganharam cada vez mais espaço, mas ainda não o suficiente. 

Hoje, um dos principais mitos que assombra a menstruação é o de que, quem menstrua, fica incapaz de conviver em sociedade durante o período menstrual. Além disso, nós, que menstruamos, ainda precisamos lidar com as piadas machistas e misóginas sobre como alguém está “fora de si” porque está de TPM (tensão pré-menstrual). Raramente há uma referência direta à menstruação. Há uma ideia preconceituosa e errônea que afirma que as mudanças hormonais “reduzem” as habilidades cognitivas. De acordo com um estudo de pesquisadores do Hospital Universitário de Zurique publicado na revista “Frontiers in Behavioral Neuroscience”, as alterações hormonais durante o ciclo menstrual não afetam a capacidade cognitiva das mulheres. 

O funcionamento do corpo humano, especificamente o feminino, gera muita expectativa e curiosidade, mas ao mesmo tempo também gera muito medo e tabus. Conhecer, de fato, o ciclo menstrual é um aprendizado infinito e constante. Muda de mulher para mulher e é isso que torna a menstruação única. Apesar disso, existe algo que nunca muda: o qual natural ela é. 

Durante uma prova de resistência no programa Big Brother Brasil 20, a participante Gabi Martins contou aos colegas que estava utilizando um absorvente interno para controlar a urina. Os mesmos alertaram a cantora que isso não iria ocorrer, já que o canal da uretra, por onde sai o xixi, e o canal vaginal, local de saída da menstruação, são diferentes. O episódio em questão chamou a atenção do público e gerou um debate sobre como até mulheres de classes sociais mais altas podem não ter conhecimento daquela informação. Pensando nisso, entrevistamos as ginecologistas Ilka Espírito Santo e Édily Tourinho: ambas relatam ser comum em suas consultas a presença de mulheres que não conhecem o funcionamento do próprio corpo. “Muitas não sabem reconhecer quando vão menstruar, ovular, fase seca e úmida, não tem noção de volume normal e alterado e também não se tocam”, diz Ilka. 

Édily acredita que isso ainda acontece como consequência de uma deficiência no ensino familiar, que já gera tabu, e se concretiza na escola por não oferecer noções básicas de anatomia. O fato é que ainda existe uma vergonha, como se não fosse um acontecimento fisiológico, assim como fazer xixi e cocô. “Ainda há um peso nas mulheres como se elas estivessem sujas no período menstrual ou como se fosse algo anormal, do qual devem se envergonhar”, contou.

Precisamos normalizar este processo, assumir que meninas e mulheres menstruam e falar abertamente sobre isso. Somente assim poderemos trabalhar para diminuir a pressão social e ansiedade pela qual as meninas passam durante a menstruação e começar a transformar este tabu em algo natural, como realmente é, conforme afirma Luisa Cardoso, fundadora da marca de menstruação sustentável Korui. Quando este assunto for tratado por todos com naturalidade, vamos passar a criar meninas e mulheres mais seguras de si e conhecedoras de seus corpos.

A história dos absorventes até aqui

Assim como a relação da mulher com a menstruação mudou, os absorventes também evoluíram e possuem um papel importante neste relacionamento. 

No Egito Antigo, as mulheres usavam o papiro, uma espécie de planta que era usada para a escrita, como absorvente. Décadas se passaram e elas optaram por não usar nada que estancasse o sangue, deixando-o escorrer pelas pernas, de acordo com a pesquisadora Sara Read.

Já as mulheres medievais utilizavam tecidos como “absorvente”. O material mais popular era o linho, por conseguir absorver uma grande quantidade de sangue. Após o uso, estes panos eram lavados e reutilizados. No entanto, não existiam calcinhas naquela época e, muito provavelmente, o tecido era usado com ajuda de um tipo de cinto que o mantinha próximo da vagina. Como é de se imaginar, algumas vezes esses “absorventes” caiam no chão e assustavam todos os que estavam ao redor, já que a Igreja não via a menstruação como algo bom. Esse método era conhecido como “tampão monstruoso”.

Até o século XIX a evolução não foi muita. Apenas em 1894 surgiram, nos Estados Unidos, registros dos primeiros absorventes desenhados para consumo. Feitos de um tecido um pouco mais absorvente, eles eram reutilizáveis e vinham com uma cinta que deveria ser acoplada à cintura, evitando o deslocamento. Durante esse mesmo período, por volta de 1890, os primeiros absorventes descartáveis já eram comercializados na Alemanha, feitos de bandagens.

A fase conhecida como on the rag, em tradução livre “no pano”, chegou e em 1918 era considerado a opção ideal para se usar durante o período menstrual. Aqui as mulheres utilizavam um pano entre as pernas e depois eles podiam ser lavados e secados para serem usados novamente.  

Durante a primeira Guerra Mundial, enfermeiras perceberam o potencial de absorção dos materiais utilizados nos curativos de soldados feridos, permitindo os primeiros esboços dos absorventes como conhecemos hoje. O primeiro absorvente descartável só foi lançado em 1930 pela marca Kotex, mas inicialmente ele não foi um grande sucesso. Para mudar este cenário, a empresa fez uma parceria com a Disney e juntas, em 1946, elas lançaram a animação “A História da Menstruação”. O vídeo, que tinha o objetivo de popularizar os absorventes descartáveis, foi o primeiro a usar a palavra “vagina” e, além disso, foi exibido nas aulas de Ensino Médio nos Estados Unidos até meados da década de 60.

No Brasil, a Modess foi a primeira linha de absorventes descartáveis a ser produzida no país, por volta de 1930. Em 1933, surgiram os absorventes internos com aplicador, o Tampax nos Estados Unidos e o OB na Alemanha, que significa “ohne binde”, em português “sem toalha”. Em 1937, junto com os absorventes internos, existem registros da invenção de coletores menstruais, mas que logo foi esquecida, porque causavam desconforto e, além disso, o fato de ter que entrar em contato com seu próprio corpo e sangue também não foram bem aceitos.

Hoje, as mulheres já encaram a menstruação como ela realmente é, um processo natural de ser vivido pelo corpo, e assim, novos jeitos de absorver o sangue foram desenvolvidos. Um deles é o absorvente de pano, agora com uma nova cara, cheios de estampa e normalmente feitos de algodão. 

Outras alternativas mais sustentáveis, assim como os paninhos, são as calcinhas absorventes e coletores ecológicos. Os tradicionais absorventes descartáveis demoram 500 anos para se decompor no meio ambiente, e isso significa que o primeiro absorvente criado no mundo ainda está entre nós. Segundo a Pantys, marca brasileira de calcinhas absorventes, 500 absorventes descartáveis equivalem a 4000g de lixo. O site da empresa também afirma que uma mulher possui em média 450 ciclos menstruais e, dessa forma, descarta cerca de 12 mil absorventes ao longo da vida, o equivalente a 180 kg de lixo.

Grandes quantidades de lixo como estas impactam diretamente no meio ambiente, pois as matérias-primas deste produto são o plástico e a celulose, que vêm do petróleo e de árvores. Por não serem recicláveis, os absorventes acabam indo direto para os aterros sanitários, fazendo com que seus resíduos demorem centenas de anos para se decompor. Além disso, o produto contém substâncias químicas que podem contaminar o meio ambiente e também fazer mal à saúde humana ao causar irritabilidades e alergias. 

A alergia ao absorvente descartável é considerada um tipo de dermatite de contato irritativa, podendo ocorrer devido ao aumento da temperatura e umidade no local, associado ao atrito de substâncias com potencial irritante, como o sangue e a própria superfície do absorvente, que é composto por materiais como algodão, perfumes e outros componentes próprios para absorção. 

Dentre os principais sintomas da alergia causada pelos absorventes descartáveis estão vermelhidão na virilha e na vulva, coceira na região íntima, ardência, descamação e alteração na coloração da pele. É preciso ter muita atenção pois, muitas vezes, a pessoa pode apresentar esses sintomas, mas demora a perceber que o absorvente é o problema. Estas erupções cutâneas, quando não tratadas corretamente, podem levar a uma infecção ainda mais grave. 

Sendo assim, as calcinhas absorventes e coletores tendem a ser o xodó dessa e das próximas gerações por gerarem um contato e conhecimento mais íntimos com o próprio corpo, enxergando esse sangue como parte do que é ser uma mulher, e não simplesmente como algo descartável que poluirá o mundo em que vivemos.

No entanto, devido a sua alta tecnologia, uma calcinha absorvente custa em média R$50 reais, já o kit de coletor menstrual custa de R$80 para cima. Com o passar do tempo, ela de fato pode representar um custo benefício, mas tal realidade ainda não abrange todas as mulheres e não é preciso ir muito longe para perceber isso. “As minhas tias no interior do Amazonas não tinham dinheiro para comprar absorventes descartáveis e utilizam um pano durante o período menstrual”, conta a historiadora Isabel Varão.

Com isso, é possível observar que, enquanto algumas mulheres buscam alternativas sustentáveis, outras não possuem condições financeiras nem para comprar um pacote de absorvente descartável, que custa em média R$4.  

O termo “pobreza menstrual” foi criado na França e trata dos efeitos que a falta de dinheiro causa no ciclo menstrual. Este problema atinge mulheres de diferentes países e, no Brasil, podemos identificá-lo tanto em comunidades mais pobres, quanto na população feminina carcerária. Em outubro de 2019, o site The Intercept Brasil publicou uma reportagem em que as mulheres do Centro de Reeducação Feminino de Ananindeua, em Ananindeua, no Pará, relataram não ter acesso a produtos de higiene pessoal, inclusive absorventes descartáveis, sendo necessário controlar o sangramento através do uso de jornal e até mesmo miolo de pão.

De fato, modelos sustentáveis estão em desenvolvimento e são cada vez mais falados, mas é uma situação ainda complexa demais para chegar na realidade de mulheres que não têm recursos suficientes para usufruir de tais produtos.

Menstruação além do gênero

Como citamos anteriormente, falar sobre a menstruação é uma das principais formas de ajudar a desconstruir hábitos e tabus sobre ela. Trocar ideias e experiências sobre o ciclo menstrual é empoderador. Por outro lado, ficar de fora da discussão pode ser frustrante.

Algumas mulheres não menstruam por causa de fatores como menopausa, estresse, doenças ou histerectomia. Elas podem nunca mais menstruar de novo por causa de uma série de condições médicas, ou elas podem ser transgênero ou intersexual. Ao mesmo tempo, há pessoas que menstruam que não são mulheres. Podem ser homens trans, intersexuais ou podem se identificar com o uso de termos como não-binário.

Durante a transição, homens trans tomam hormônios ou passam pela cirurgia de redesignação sexual, o que interrompe a menstruação, como é o caso do publicitário Bernardo Araújo, de 23 anos. “Minha menstruação parou no primeiro mês de hormonização, porém os sintomas da TPM permanecem. O ciclo menstrual em si sempre foi uma coisa desagradável pra mim, mesmo antes da transição. Hoje em dia eu falo tranquilamente sobre, mas para muitos homens trans e não-bináries o tema causa grande disforia. O modo que se fala a respeito disso com cada pessoa que menstrua é e pode ser diferente”. 

Já outras pessoas não passam pelo mesmo processo e, por isso, precisamos normalizar o fato de homens trans lidarem com ela. Em entrevista à Mercadizar, o artista Adriel Pietro, de 22, contou que, para ele, a menstruação sempre foi algo natural, mas que a publicidade de produtos destinandos à menstruação direcionada à mulheres cis causa desconforto, como o uso da expressão “produtos de higiene feminina”. 

“A menstruacão sempre foi algo muito natural, geralmente o desconforto que sinto é causado por comerciais de absorventes, que sempre representam mulheres cis, garotas cis na puberdade em geral, excluindo totalmente nós pessoas trans, homens trans, pessoas trans não-binarias, enfim todas as pessoas que possuem um útero”, afirma. 

Muitas pessoas acreditam que menstruação é coisa de mulher, mas vai muito além disso: a menstruação é uma função biológica do nosso corpo que não está relacionada ao gênero da pessoa. Então, não necessariamente todas as mulheres menstruam e nem toda pessoa que menstrua é uma mulher.

Se em pleno século XXI, apesar de quebras de paradigmas e avanços sociais, a menstruação segue sendo um tabu quando falamos em mulheres cisgêneros, que ainda se sentem oprimidas em relação ao assunto, imaginem para pessoas LGBTQIA+? Pelo tema ainda ser fortemente ligado às mulheres cis, eles quase nunca são vistos como pessoas que também precisam lidar com essa questão. 

“Esse número pequeno de debates se dá, principalmente, ao fato de termos poucas pessoas trans na mídia. A discussão é necessária para que a sociedade entenda que genital não dita o gênero de uma pessoa, portanto, também existem homens trans e pessoas não-bináries que menstruam, e por sua vez também precisam da devida atenção social e médica tanto quanto as mulheres. O acesso de muitas dessas pessoas ao médico é dificultado pela falta de informação a respeito e pelo preconceito. Esperamos que esses debates cresçam com o passar do tempo e que esse cenário evolua”, explica Bernardo. 

A menstruação é uma experiência plural, que envolve mulheres cisgênero, mas não somente elas. É importante não invisibilizar pessoas LGBTQIA + que menstruam, inclusive as pessoas trans. Para isso, precisamos ampliar os diálogos sobre menstruação para muito além dos gêneros. A informação precisa ser sobre todos para todos

“No Brasil, sempre são dados passinhos pequenos até que as pessoas acreditem que esse assunto seja relevante. As marcas de fora já tomam essa iniciativa numa publicidade que diz ‘pessoas menstruam’, e é sobre isso, sobre o desconforto, e a exclusão de pessoas trans. A publicidade tem um poder enorme sobre as nossas vidas, seria muito bacana se marcas de absorventes se juntassem e falassem: ‘Agora não vamos só focar em mulheres cis, vamos ser inclusivos’. Está mais do que na hora das empresas pararem de fingir que nós, pessoas trans, não existimos”.

Um pouco sobre a menopausa

A partir dos 40 até os 65 anos, as mulheres têm uma redução fisiológica da produção de hormônios pelos ovários. Esse período é definido como climatério. A menopausa, ou seja, a data em que ocorre a última menstruação, é um evento que pode acontecer em qualquer momento nessa fase do climatério. No entanto, é mais frequente entre os 48 e os 52 anos.

“A menopausa é um marco na vida das mulheres, representa a última menstruação e a vivência do climatério, que é um período longo resultante de mudanças hormonais que marcam o fim do período reprodutivo. É um momento de muitas alterações e sintomas físicos e psíquicos, dentre os quais alterações de humor, sono, da libido e da disposição geral”, afirma Simone.

A menopausa é uma experiência única – os seres humanos são uma das quatro espécies no planeta que passam por ela – e é tão natural quanto a menstruação. Apesar disso, é um período doloroso para muitas mulheres, principalmente por ser marcado por grandes alterações físicas e mentais causadas pela drástica redução de hormônios, conforme a psicóloga explica.

“É comum a labilidade emocional, o choro fácil, os fogachos, a impaciência e a irritação. Para muitas mulheres é uma experiência dolorosa e solitária que gera culpa e depressão, especialmente, pelo estigma social associado ao envelhecimento e ao medo de não corresponderem sexualmente aos seus parceiros”.

Todas as pessoas que menstruam passam por esse processo único e natural. Apesar disso, essas fases seguem sendo pouco abordadas socialmente. 

*Em 2020 lançamos uma matéria no portal com o mesmo tema, escrita por Ariel Bentes e Luana Pacífico, e sentimos a necessidade de aprofundar ainda mais este debate aqui. Confira acessando este link.

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