Isabella Botelho; 07/04/2020 às 19:00

#MercadizarIndica: The Politician usa o humor para falar de ambição

Primeira produção de Ryan Murphy para Netflix mistura "Glee" e política

Protagonizada por Ben Platt, The Politician, disponível na Netflix, é a primeira série de Ryan Murphy para a plataforma e acompanha a história de Payton Hobart, um jovem que se imagina destinado à grandeza e sonha em, um dia, se tornar presidente dos Estados Unidos. Para chegar lá, estudou todas as biografias de todos os ex-presidentes do país, dando uma atenção especial àqueles que sucederam Ronald Reagan, e trilhou seu caminho desde muito cedo. 

A primeira temporada começa com Payton sentado diante do reitor de Harvard. O jovem vestindo blazer e cabelo lambido de gel mede as palavras e as emoções com um calculismo indisfarçado. Prestes a se formar num colégio da Califórnia, ele tenta garantir sua vaga na universidade dos sonhos. No entanto, ao longo da entrevista, percebemos que ele não parece muito interessado nos benefícios que aquele diploma pode dar à sua vida profissional. A primeira surpresa vem quando o reitor pergunta por que escolheu Harvard: “É a universidade que mais formou presidentes. Sete”, afirma. As perguntas continuam: se já está quase se formando, por que decidiu concorrer à presidência do grêmio estudantil da escola? “Esse foi o roteiro da ascensão de Barack Obama e Bush”.

Com a ajuda do grupo formado por sua namorada e aspirante a primeira-dama Alice (Julia Schlaepfer) e pelos líderes estrategistas James (Theo Germaine) e McAfee (Laura Dreyfuss), Payton está convencido de que a vitória é certa. Mas ele é surpreendido – e questionado – quando River (David Corenswet), jogador de lacrosse, galã da escola e namorado de Astrid (Lucy Boynton) também se candidata. Qualquer coisa dita além disso já pode ser considerado um spoiler. 

É a partir dessa premissa que The Politician entra no contexto político, embora muitas vezes as tramas e articulações fiquem em segundo plano em relação aos dramas pessoais dos protagonistas. O que não quer dizer que não exista ambição da série em tratar dos elementos que fazem parte e, sobretudo, movem o jogo do poder. A verdade é que ela está muito mais interessada em estudar o que desperta o interesse dos jovens em tempos em que absolutamente tudo e todos precisam saber exatamente para onde vão e, o pior, não há espaço – e nem tempo – para erros.

A série é extremamente irônica quanto aos privilégios dos jovens de classe média alta, mas muitas vezes se perde entre o humor ácido e um reforço estereotipado do que deseja criticar. Isso acontece principalmente quando a série está sob o ponto de vista de Payton, um personagem tão próximo a Rachel Berry (Lea Michele), de Glee, que é fácil imaginar um diálogo entre eles recheado de hipérboles e tão fascinante a ponto de ser exaustivo. Ambos acreditam que estão destinados a futuros incríveis e se enxergam como muito melhores que seus colegas. Eles são até mesmo adotados e exímios cantores. Enquanto ela acredita que seu destino é a Broadway, ele sonha em chegar à Casa Branca.

Rachel Berry (Foto: Reprodução/Internet)

Assim como Rachel, Payton é um personagem um pouco difícil de se desenvolver empatia e fazer com que o público se identifique com ele. A jornada do personagem consiste em sua transformação pessoal de um privilegiado egoísta a pessoa com uma personalidade um pouco mais aceitável. Ao longo da temporada vemos todos os pontos de transformação, principalmente quando ele é atingido em cheio pelas consequências de seus próprios erros e escolhas e nos momentos em que precisa assumir sua humanidade e descer do pedestal em que vive. Vencedor do Tony Awards de 2017 por Dear Evan Hansen e de talento inquestionável, Platt se doa completamente ao personagem e nos entrega uma atuação impecável, apesar de dificilmente convencer como um jovem de 18 anos – o ator tem 26. 

Da primeira cena do primeiro episódio até a cena final da temporada, The Politician é indiscutível e inconfundivelmente uma série de Ryan Murphy. Todos os seus tiques que amamos – ou não – estão representados lá: personagens complexos, figurinos em excesso, expressões faciais e diálogos exagerados e muito drama. Mas se você achava que a série mostraria o caminho até a Casa Branca, repense. Esta é uma jornada de ambição de uma pessoa que precisa aceitar sua humanidade e aprender a lidar com os seus sentimentos, o que é tão difícil hoje em dia. Quer uma dica? Fique de olho no último episódio, que é basicamente uma abertura da próxima temporada, com direito a performances fantásticas de Judith Light e Bette Midler. 

No mais, The Politician é uma ótima desculpa para ouvir Ben Platt cantando, embora os momentos musicais não façam muito sentido na história além de explorar todos os talentos do ator e cantor. E Ryan Murphy não está errado, não é mesmo?

Apreciem “Vienna”, de Billy Joel, na voz de Platt:

 

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